Por bferreira

Rio - Recentemente, vi um vídeo em que um pastor justificava a morte de John Lennon, como se o assassino agisse em nome do “Pai”. Eu fiquei estarrecido. Logo após o espanto, eis que surge a seguinte questão: como esse homem pôde justificar a morte de alguém usando o nome de Cristo? Desde criança eu leio a Bíblia, e eu nunca vi Cristo justificar a morte de alguém dentro do Novo Testamento.

Pelo contrário, ele é a imagem e a própria materialização dos sentimentos mais importantes para a nossa existência. Sentimentos os quais parecem terem sido esquecidos por nós, vide: a humildade, justiça e a compaixão. Esse é, a meu ver, o maior legado de Cristo deixado para nossa civilização. Independentemente daqueles que não acreditam na sua existência, a História imortalizou o pensamento de um dos homens mais importantes que conheci. E a sua importância reside no seu profundo conhecimento da natureza humana. Um dos traços mais marcantes nesse humanista é o fato de ele ser um grande crítico do senso comum. Aliás, muito parecido com o filósofo grego Sócrates.

Há uma passagem, que se encontra no Novo Testamento (João 8:7), na qual um grupo de homens leva uma mulher a julgamento diante de Cristo, sob acusação de adultério, onde um dos acusadores diz que ela deveria ser “apedrejada” segundo a “lei” de Moisés. Cristo, enquanto escrevia calmamente na terra, olha na direção de todos os “acusadores” e diz: “Aquele que de entre vós está sem pecado que seja o primeiro que atire a pedra contra ela”. Notem a elegância e sutileza do pensamento desse homem: ao contrário do que a plateia esperava, ele em nenhum momento emite uma ordem categórica condenando a mulher, diferentemente da postura descontrolada e agressiva que eu vi do pastor no vídeo, que vociferava de modo insano utilizando o nome de Deus para justificar a morte de um homem. Pelo contrário, Cristo age como um autêntico filósofo socrático, pois ele usa o seu pensamento reflexivo para instaurar a “suspensão do juízo” entre todos os presentes juízes. As suas palavras têm o poder de atravessar o alicerce do preconceito e da ignorância que nos impedem de ver e compreender a realidade. O efeito de suas palavras gera uma espécie de deslocamento de perspectiva, como um espelho côncavo que reflete a nossa imagem através dos olhos dos outros. Isso é de extrema importância para aprendermos a respeitar o nosso semelhante através de suas dessemelhanças.

A postura violenta do pastor, que vemos no vídeo, não é em hipótese alguma condizente com a imagem que temos de Cristo. A benevolência precisa ser resgatada e praticada como ideal mais importante na construção de um novo mundo que saiba harmonizar todas as diferenças.

Emerson Facão é poeta, músico e professor de Filosofia

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