Por bferreira
Rio - O sujeito solta a coleira do seu pequeno animal de estimação, um pastor-alemão bem alimentado, na galeria do bairro, mas acalma os passantes ante sonoras aspiradas nos sapatos alheios: “Relaxa, ele é mansinho”. O Rin Tin Tin suburbano tem um rabo maior que a antena de rádio-amador do vizinho de infância e, numa descompassada abanada, leva a nocaute um distraído bebê em seus primeiros passos. A cena é real. Enquanto o dono ri orgulhoso das evoluções caninas, o bicho, quase um vigilante rodoviário, atravessa em babas o bar próximo causando ironia do gerente cascudo: “Vai trabalhar de garçom?”. Daí pra frente, um previsível corre-corre invade o negativo desse retrato. E o dono? “Sit! Sit!”
O quadro, uma video-cassetada costumeira, é frequente em nossas vidas urbanas. Meu amigo e ídolo Ruy Castro chama a atenção para diferentes manifestações no ‘simancol de convívio’. Você escolhe a poltrona do corredor no avião de passageiros. Vamos imaginar a C-10. Por conta das prioridades, seu embarque é imediato e logo logo sente-se acomodado. A partir daí, feito golpes numa madrugada de Minotauros e Belforts, seu queixo de vidro espatifa na sequência de mochilas e berimbaus, restando a comissária de bordo abrir contagem num braço erguido que prevê o resultado em dez segundos.
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Um folhetim de maus costumes.
Há 15 anos, século XX, o gaiato acendia um charuto no elevador soltando ‘ós’ de fumaça no seu perfil de egípcio, mesmo você de lado pra chaminé. Na última baforada, o cubículo ganhava contornos de um céu inglês na era industrial. Nem lavando o terno com cloro e creolina, o cheiro de tabaco cubano se desprendia. Cabe incluir o malandro-fila. O cara-de-pau percebe o banco lotado, guichês de empréstimos em alta e pensionistas inconformados, entra na fila atrás de você e sem esperar fazer sombra, dispara: “Amigão! Dá pra segurar o meu lugar enquanto eu vou aqui ao lado me informar?”. O Gerson dos extratos sai diante do seu aceno contrariado, requebra na porta giratória e vai, sim, se informar, mas do resultado do futebol no bar em frente, enquanto a fila anda. Notável.
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De volta ao canil, recorro ao amigo Baiano atento ao movimento de uma praça em Copacabana: “Moa, ‘tô’ reparando: aqui, quem leva o animal pra passear é o pitbull! O pitboy apenas rumina!”.
O sujeito solta a coleira do seu pequeno animal de miniatura, um pequinês tarado que avança, pornô, na sua canela desnuda. Com um sorriso pedófilo, confidencia: “Relaxa, ele é impotente! Hehe!”
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Essa vida anda um osso duro de roer.