Por tamyres.matos
Rio - O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo apresenta sete mostras, simultâneas. Foi dentro deste redemoinho que me deparei com a Exposição MAC em Obras, que apresenta, ao lado de cada Obra famosa que está sendo restaurada, os problemas de conservação e catalogação, que tanto dificultam a restauração, que agora tem que lidar com as instalações e o inusitado de nossa arte de 1960 para cá.
É muito engraçado ir vendo as obras apagadas, quebradas, esperando soluções de lâmpadas elétricas ou de vídeo, para voltarem a piscar ou ficar de pé. Enfim, amados, a arte do agora complicou, e muito, a vidinha pacata dos museus de antigamente. E estas dificuldades fazem parte da exposição, e são exibidas quase num reality show tipo ‘Big Brother’. As obras definhando possuem ao lado um... prontuário!
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Foi aí que eu dei de cara com a obra Pele, de Ana Barros, criada desde 92 para os tridimensionais (não se fala mais escultura) do Museu. Como se trata de um suporte de madeira fino e alto, tendo sobre ele jogado um manto de látex que imita a pele humana, com o passar destes 21 anos, a borracha endureceu, a pele está lá exposta dura, e ao lado você acompanha como estão tentando fazê-la voltar ao viço.
Para tanto chamaram a autora para dar a palestra que seria filmada diante da atenta plateia, para ver o que, e como, fariam para reavivar a obra. Para grande surpresa e comoção, a maravilhosa autora decretou a Morte de Pele. Diante das câmeras e depois em memorando escrito aos curadores, a criadora disse que não havia mais o que fazer pela obra de arte.
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Como mãe-artista, Ana decretava a morte de sua Pele! Mais que isto: exigia em carta oficial o enterro de seu rebento, a ser realizado em cortejo fúnebre que sairia do salão da exposição em performance filmada, chegando até uma cova aberta no gramado do Parque Ibirapuera, onde ela seria depositada e, fechada a sepultura, a lápide ‘Aqui Jaz A Pele’ seria o vestígio de que a obra um dia existiu, e da qual sobraram a pedra do túmulo e o vídeo. Mais surreal impossível.
Mas foi aí que veio a resposta do Ministério Público, questionando em Memorando de papel timbrado o pedido de enterro em solo comunitário: 1) O Conselho Superior do MAC-USP concordava com o enterro? e, isto posto; 2) Quem arcaria com os custos do sepultamento, como caixão, iluminação, coveiro, seguranças, etc. Esta troca de correspondências, que poderia ser em Sucupira ou Saramandaia, faz parte agora daquele canto de museu,numa vitrine branca, onde o estado agônico da obra endurecida espera solução. Seria o túmulo da arte pós-moderna paulistana.