Por bferreira
Rio - Dando uma das minhas habituais voltas nesse mundão sem porteiras que é a internet, me deparei com artigo que cita um livro do psicanalista Jurandir Costa Freire, ‘Sem fraude e sem favor — estudos sobre o amor romântico’. Nele, o autor sustenta que o amor “é uma crença emocional e, como toda crença, pode ser mantida, alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida”.
Mais, diz que o amor como o conhecemos foi inventado, assim como a roda, o casamento, o computador, a democracia, o nazismo e os deuses. É como se a ideia do amor fosse uma espécie de casca de banana em que voluntariamente nos dispuséssemos a pisar e a escorregar. Assim, nos arriscaríamos a cair em depressão ao comparar nossos amores — capengas, cheios de medos, dúvidas e limites — com as paixões perfeitas e arrebatadoras dos filmes e novelas. Cultivaríamos sarnas para nos coçar e frustrar.
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Faz sentido, mas não dá para jogar em Hollywood e nos velhos e adocicados livros a, vá lá, culpa por essa tal invenção do amor, por sua imposição. As referências ao sentimento e às sensações que provoca são bem anteriores. Quem duvida pode dar uma folheada no ‘Cântico dos cânticos’ da Bíblia, apenas um entre os muitos exemplos possíveis. Por mais imperfeito, frágil e volúvel que seja, o amor é algo humano, não tem necessariamente a ver com o suprimento de necessidades. Um animal se afeiçoa a quem o alimenta e abriga, mas resisto a classificar como amor algo que me parece mais próximo a uma lógica de sobrevivência.
Talvez o problema esteja relacionado ao ângulo de observação. Ao equiparar o amor a objetos e crenças, Freire parece, digamos, disposto a rebaixá-lo, a colocá-lo no seu devido lugar. Mas pode ser o contrário. Ao incluí-lo numa lista de criações humanas — nem todas positivas; dela consta, por exemplo, o nazismo —, ele o encaixou numa honrada posição. Prefiro acreditar que o amor não foi inventado, mas, sim, sintetizado numa palavra que — com todas as limitações e imperfeições da linguagem — tenta traduzir, definir e enquadrar aquela intraduzível, indefinível e inenquadrável profusão de sentimentos e desejos; nem todos nobres, mas inegavelmente humanos. O suposto ato intelectual que teria criado o amor não seria, assim, fruto de mentes dispostas a nos fazer sofrer, mas apenas uma resposta aos anseios que deveras já carregávamos.
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Fernando Molica é jornalista e escritor | E-mail: [email protected]
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