Por bferreira
Rio - Dispõe a Constituição que a ordem econômica há de assegurar a existência digna conforme os ditames da justiça social. Mas o que é uma Constituição diante da primazia do capital? O desrespeito ao Estado de Direito em nome de um campeonato mundial de futebol tem sido constante. As instituições estão a serviço dos cartolas. Governantes, a bordo de helicópteros de empreiteiros, levam suas namoradas para resorts até que a queda de um deles traz o fato ao conhecimento da sociedade e ameace reações.
Reações já foram vivenciadas em outros lugares do mundo onde governantes se envolveram em práticas similares. Em março de 2011, a Itália comemorava 150 anos de sua unificação, e na Ópera de Roma executava-se ‘Nabuco’, de Verdi. Ao findar o ‘Va Pensiero’, canto dos escravos oprimidos, que naquele país evoca o grito de liberdade do povo, o silêncio da plateia foi substituído por um fervor. O maestro Riccardo Muti disse sentir a reação do público enquanto o coro dos escravos cantava: ‘Ó, pátria minha, tão bela e ultrajada’. A plateia gritava “Bis!” e “Viva a Itália!” O constrangimento do primeiro-ministro Silvio Berlusconi não podia ser maior. O maestro não queria fazer o bis para o ‘Va Pensiero’, pois uma ópera não deve sofrer interrupções. Mas rendeu-se e disse: “Sim, estou de acordo. Viva a Itália! Se é o que querem, cantemos juntos!”. Ao final, público, músicos, atores e maestro choravam de emoção. Um povo que se apossa de sua cultura impede que os governantes falem em nome da pátria, uma vez que remunerados tão somente para governar o país.
Publicidade
Em 1513, Maquiavel concluiu seu livro ‘O Príncipe’ dizendo que a virtude se empunharia contra a fúria porque o valor não se apagara dos corações italianos. Da mesma forma, a brasilidade não se apagou do coração do povo brasileiro e haverá de reagir aos governantes e à truculência de sua polícia a serviço dos cartolas, da Fifa e dos empreiteiros. As manifestações dos indígenas em todo o país é o começo da reação ao que se faz com o povo.
Publicidade
Doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito. Membro da Associação Juízes para a Democracia