Por tamyres.matos

Rio - Fiquei surpresa quando, no auge do fechamento do jornal depois do pronunciamento da presidenta Dilma, fui ver a repercussão no Facebook e me deparei com a opinião política do meu sobrinho de 15 anos, que terminava com “só o PT mesmo”. De repente, parei para pensar em como a realidade mudou e, sempre indignada com o errado, me dei conta de que as minhas reclamações circularam muito no campo das ideias, nas rodas de amigos, dentro dos táxis.

De eficazes, mesmo, minhas reclamações não tinham nada, e essa conclusão me fez compreender melhor o que mobilizou centenas de milhares de pessoas a irem às ruas. Eu não era (sou) a única não-alienada que não aguenta mais. Que infantil pensar no meu sentimento de indignação como sendo pessoal e intransferível, quando a sociedade mostrou com força inquestionável que também tem uma insatisfação com tudo e que quer ser ouvida, assim como eu, por quem deveria nos representar e não o faz.

Sou do tempo em que o professor de Literatura chegou a chorar em aula, com medo de ser preso e ter alguém ouvindo o que ele ministrava, ao tentar decifrar para a turma da idade do meu sobrinho uma letra de Chico Buarque contra a ditadura. Comovente. Ele todo de branco explicando, olhando para a porta, pelas janelas, com medo de ser descoberto. Tempos depois, comecei a ouvir falar em Arena e MDB e meu pai me explicou o que era cada um. Votei aos 16 anos, querendo “ser comunista”.

Admirei quando estudei política, embora nunca tenha sido de um partido. Sempre escolhi pela credibilidade do candidato. Mas não pude deixar de chorar, assim como a maioria do povo, quando o PT chegou ao poder e o Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto. Representava uma esperança no coração do povo, fazia jus à nossa história, para culminar, resumidamente, com “só o PT mesmo”.

Levada através dessa lente adolescente a perceber que o buraco é muito mais embaixo do que as informações que eu carrego, vi-me pensando na importância da existência dos partidos para o exercício da democracia e em como um partido, através de seus representantes, pode se achar acima do bem e do mal, subjugando o povo e sua voz.

Fora que as alianças políticas estão aí para esculhambar tudo, deixando de lado as ideologias, que existiam. O povo cansou de ser falsamente ouvido como atendimento de telemarketing e exige um canal de comunicação. A gente paga impostos caríssimos e paga por fora o transporte ruim, o plano de saúde, segurança etc, quando essa infraestrutura básica deveria nos ser oferecida. Pagamos duplamente.

Ninguém mais quer ser usado como massa de manobra. Depois da última semana, em que o Brasil saiu da letargia para esfregar na cara do poder o abismo que há entre nós, o governo não pode mais ignorar que está ao alcance de todos romper a barreira da ordem e promover a baderna em nome do progresso.

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