Por bferreira

Rio - Somos vizinhas de longa data. Quase 30 anos. Juntas, assistimos tiroteios e invasões, vimos violências de toda sorte, ouvimos tiros e rajadas noite adentro, misturando pânico e preocupação. Juntas, vimos o Bope chegar dezenas de vezes, presenciamos a chegada dos caveirões, torcemos pelo bem e tivemos medo do mal. Veio o que chamam de pacificação. Os bandidos diminuíram a olhos vistos, meninos com metralhadora nas mãos desapareceram e para os moradores da comunidade vieram os assaltos, os pequenos furtos, o medo da casa arrombada.

E veio também a obra do Metrô, que promete ser um bem, e de novo, juntas, temos esperança, mas sofremos e nos assustamos, várias vezes ao dia e à noite, com as explosões de dinamite provocadas pelo todo poderoso Consórcio da linha 4. Juntas, fazemos compra num dos supermercados mais sujos do Rio de Janeiro. Eu e minha vizinha Rocinha sabemos como nosso bairro São Conrado é bonito e acolhedor, espremido entre o mar e a montanha, apesar da devastação provocada pelo tal consórcio. E juntas encaramos o preconceito dos moradores da Zona Sul, que além do medo que sentem desta gente de São Conrado debocham dizendo que não moramos no Rio. Até ficamos irritados, mas não nos abalamos. Nós, os moradores do asfalto e do morro, não deixamos nunca, por livre e espontânea vontade , o nosso bairro. Nos orgulhamos do nosso lugar.

E ela, a Rocinha, me deixou orgulhosa quando fez sua parte nas manifestações. Desceu o morro com classe, exigindo cidadania. Não pediu nem concordou com o inútil teleférico. A Rocinha mostrou que não é do tipo que quer ser atração turística. A Rocinha quer mais. Quer creches, educação de qualidade, bibliotecas, centros culturais, postos de saúde eficientes. Quer o que é fundamental para a vida cidadã. Por aqui, precisamos de qualidade de vida. E qualidade de vida é educação, saúde, moradia, transporte decente e o tal do saneamento básico. É óbvio que o trabalhador quer segurança para si mesmo, sua família, para todos poderem exercer o direito fundamental de ir e vir. E isto é direitos humanos.

A Rocinha foi ao Leblon com categoria. O Vidigal se apresentou com força e foi bonito de ver. Teve lá sua tensão, afinal, a multidão deixa todo mundo tenso, com medo que baderneiros se aproveitassem da ocasião. Felizmente, eles não apareceram. Não sei quem organizou. Nem conheço seus líderes. Mas adorei constatar, com todo respeito às outras comunidades, que a Rocinha não é uma qualquer. Está lúcida. E lucidez faz diferença. Que continue assim.

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