Moacyr Luz: O meu Maracanã

O ‘Maraca’ tá lindo, eu sei, meu receio é não identificá-lo como a casa em que morei

Por O Dia

Rio - Domingo, não sei se vou ao Maracanã, o estádio de gravata. Aos que se espremiam naquele cimento maciço, pedra fundamental da maior de nossas paixões, é possível estranhar as numeradas cadeiras retráteis. A grama sintética sobre os geraldinos soterrados, um perfil de costas pro passado, primitivas charangas com seus pistões na afinação do hino de coração. Volto num replay demorado, aos jogos em rodada dupla, assistindo a meus ídolos fiéis à camisa de origem, um dente de leite guardado no cordão de ouro, infantoinocentes. Alguns cabeças de bagre, heróis para sempre, Onça, Denilson, Renê e Leônidas, com travas de prego na cruz dos atacantes, encaravam as partidas feito a fome num prato de comida.

O torcedor chegava na primeira hora da tarde. O Sol vinha nas duas traves, os cantos batizados por Waldir Amaral de “indivíduo competente”, cobiçados no par ou ímpar da moeda carimbada. Não bastavam nomes, Neymar Jr. ou Fred, puros e simples. Tudo pedia exagero. Furacão, Dinamite ou Possesso, ídolos de rua, vestindo eles próprios os seus uniformes sem os incansáveis anúncios das cervejas de estranho sabor. No estádio, o Jornal dos Sports servia de assento à tórrida arquibancada de um Rio 40º, passado o filme sem telões de LED, antiquarto juiz — por sinal, ele sempre fora de forma e xingado até quando apitava a favor. Em qualquer partida, cem mil pessoas, girando as altas roletas, subiam a rampa do Derby enquanto tantas outras esperavam no Bellini. O Portão 18 também era cobiçado, entrada dos iniciados e — mas restritos e maravilhosos — aos elevadores de acesso às cativas. Era o tempo de João Nogueira e a sua voz carioca num timbre rubro-negro, brindando nos bares de cima a visão completa no gol do Zico. Tive o privilégio de ir em sua companhia torcer pro time que seu fã. Perpétuo, guardo essa estrela no meu brasão pessoal.

Sem saudosismo, nem tenho idade pra isso, recorro a essa época quando preciso acender o meu fascínio por futebol. Tempos de motorrádio, de frases marcantes que ainda ecoam na memória. Sim, tem peixe na rede do adversário, choveu na horta, deixa comigo, dez é a camisa dele! Havia emoção em cada lance. Cadenciado, se um sujeito gritasse qualquer absurdo da Geral, o atleta desviava a atenção. O jogo contra o Bonsucesso era um clássico de enfartar os mais vividos. Acreditem, o genial Lamartine Babo também lhe compôs um hino.

Hoje são ingressos digitalizados, comprados na véspera. Leis proíbem qualquer cantoria e, pode bater com a cabeça no poliuretano, mas fumar lá dentro está fora de questão. As lanchonetes aceitam cartões de crédito, e as guloseimas no cardápio incluem os valores energéticos de cada mordida.

O ‘Maraca’ tá lindo, eu sei, meu receio é não identificá-lo como a casa em que morei. Não reconhecer o muro, o pé de jabuticaba, o quarto dos primeiros sonhos. Decido torcer a milhas das quatro linhas. Dispenso o fair-play internacional e da minha janela, sem federação, grito: “Brasil!” É o que me resta.

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