Milton Cunha: Lugar onde sonhos nascem

Minha realidade dura, e o retângulo pequeno significava a ida para o mundo dos outros, onde eu me emocionava...

Por O Dia

Rio - Eu olho as adaptações de novelas com saudade de mim mesmo, do garoto que eu fui, apaixonado por aquela gente refletida numa telinha de vidro, e que tanto me ajudou a compreender o mundo e suas possibilidades. Eu melancolizo por um tempo perdido, ido, e que não voltará. Onde está Dina Sfat e sua apaixonada pelo Lobisomem? A Risoleta de Dob Bloch não faz feio, tem o brilho nos olhos imprescindíveis para uma seduzida pelo esquisito. Mas, Dina, onde foi parar Dina que é tão viva em meu coração? Corro atrás destas criaturas que restaram em mim, como se eu buscasse meu fio condutor, a matéria imaginada que me forma. Na maioria das vezes, não encontro meus entes queridos na versão de agora, e me indago: eles são menores, ou são meus olhos que já não existem mais?

Será que perdi a falta de repertório que tinha, folha em branco, e hoje do alto de minhas referências já sei o que me arrebata, não estou mais livre, sou preso ao que fui e foi se somando ao longo dos anos.

Mas aí embarco completamente no Aristóbulo de Gabriel Braga Nunes, lindo, esdrúxulo, um acerto de composição de figurino, cabelo, óculos, que me dá mais tesão que o antigo de Ary Fontoura que só me dava repulsa e medo. Então me confundo, percebo que as portas estão abertas, que algum canto de minha alma ainda absorve a magia da ficção com a força e a pureza de um menino que olha pela primeira vez o mundo. Quem será a Carminha de 2035? E sigo tentando me sentar na poltrona da sala para mudar os canais no botão enorme que fazia barulho numa televisão, caixa de madeira cheia de chuvisco, passando do preto e branco para as cores. Minha realidade dura, e o retângulo pequeno significava a ida para o mundo dos outros, onde eu me emocionava de uma forma grande. As novelas eram maior que minha vida, era o mundo onde eu queria viver.

E morro de pena dos garotos que assistem à ‘Dona Xepa’, porque eles não levarão consigo a Glorita Soares da Cunha da fascinante Ana Lúcia Torre, e seus embates hilários e classudos com Yara Cortes, olhos azuis lacrimejantes. Foi um mundo, foi um tempo, foi-se. Quem vive de passado é museu e eu sou um museuzão de flashes: Fagundes novinho fazendo Sonia Braga pegar fogo, uma quentura que eu não entendia como metáfora. Jamais olhei os folhetins sem fantasia. Meu Deus, Miriam Pires aparando as asas de Juca de Oliveira, me fazendo voar. Medo, força, capaz de permanecer comigo décadas. Obrigado queridos autores, atores, diretores. As novelas foram a espinha dorsal do eu-sonhador que sempre sou.

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