Milton Cunha: Mart’nália nunca 'bobéia'!

Com sua voz única, doce e cortante, sedutora e crítica, macho e fêmea, diante desta esfingeo público se acaba...

Por O Dia

Rio - Saindo do estacionamento, dei de cara com o travesti que caminhava pela calçada da Dias da Cruz. “Tá meu amor? Se eu pedir e sair por aí nos lugares, me acabando de rir... É que eu sou assim, bem direitinho, cê não sabe acompanhar”. E quanto mais a boneca sambava e cantava ‘Cabide’, mais eu caía no ziriguidum. “Mart’nália no Imperator é babado, gritaria e confusão, meu amor...”, dizia ela em alto e bom tom. Pois tinha toda a razão, porque como a divina cantora repetiu várias vezes durante o show “quem é do Méier não bobéia...”.

Me despedi do travesti que seguiu animadíssima rumo ao lugar que a faria feliz. Foi aí que olhei em volta e vi o entorno do Centro Cultural João Nogueira bombando: iluminação, comércio, gente passeando, trânsito intenso e uma aura de felicidade enorme. E já que o bairro está feliz e pulsante, parabéns, Prefeito Eduardo Paes, foi um acerto revitalizar aquilo ali, deslocando este eixo de poder da Zona Sul e Centro, sempre tão exuberantes em seus espaços culturais, fazendo com que o queridíssimo Méier voltasse aos dias de glória, oferecendo entretenimento para os cariocas de todas as zonas, mas sobretudo para a galera que não bobéia. Cinema, exposição de artes e... Mart’nália.

O que é Mart’nália? A mais pura tradição da malandragem carioca, de um espírito esperto e descolado do povão desta cidade, ao mesmo tempo celebrante e cobrador. Mais que isso, ao lado de uma postura na vida que tão bem representa todos os sambistas, Mart’nália soma a isto uma absoluta coerência cênica, um repertório de primeira, num show memorável que abre com os versos de Antonio Carlos e Jocafi para a inesquecível “Você abusou”. Bom demais, de tirar o fôlego de tanta qualidade artística. Num show que se chama ‘Nem Tente Compreender’, compreensível em sua exuberância cultural do princípio ao fim, a dica sobra como uma compreensão racional que tiraria a intuição de se deixar levar por um concerto impecável do melhor de nossa MPB. Com sua voz única, doce e cortante, sedutora e crítica, macho e fêmea, diante desta esfinge só resta ao público se acabar.

E o Méier, aquele que não bobéia jamais, se entrega despudoradamente ao prazer de ter Mart’nália em cena. Todas as entidades populares descem ao encontro daquela roda, que honra nosso subúrbio no que ele tem de mais avassalador, ou seja, a produção do ritmo que nos define como Nação, um samba cheio de safadeza, jogo de cintura, que cabe tanto na boca do travesti que faria calçada como na do intelectual da Academia. A filha de Martinho é para muitos, de A (amor) a Z (zoação).

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