Leda Nagle: A exposição da dor ou da paixão

A hora dos pênaltis é a hora dos fortes, dos corajosos ou dos pragmáticos. Não me parece a hora dos apaixonados

Por O Dia

Rio - Tenho profunda admiração por quem vai ao campo de futebol torcer pelo seu time. Aquele que leva bandeira, que se veste com as cores do clube, que aparece na televisão com lágrimas nos olhos ou aquele que chora que nem menino na vitória ou na derrota. Me comove a exposição da dor ou da paixão.

Do sofrimento ou da alegria. Fico de casa, tensa, de um lado pro outro, a dor escondida, a paixão contida, a angústia doída da solidão escolhida. O coração parece que vai explodir a qualquer momento. Tenho medo, e o medo é paralisante. Gostaria de gritar, de xingar o juiz, o adversário, o tempo, qualquer um, qualquer coisa numa vontade doida de dar vazão à agonia que o relógio impõe quando o time da gente precisa de um golzinho e não faz. Preciso do silêncio, da imagem muda, da TV sem som. Nem assim a calma vem. Com as redes sociais, a falsa ideia da companhia e da presença do outro parece aliviar a solidão, sem permitir a interferência direta do outro. O falar do outro. É um jeito esquizofrênico de torcer.

De viver o momento dramático que se aproxima. Sim, neste tipo de jogo, nervoso e decisivo, a hora dos pênaltis é a hora dos fortes, dos corajosos ou dos pragmáticos. Não me parece a hora dos apaixonados, dos que se deixam levar pela emoção. Expor a dor é bonito, mas não é para todos. Rezar adianta? Chorar adianta? Beber adianta? Fechar os olhos adianta? O estômago oco não quer alimento, não reconhece a fome. A garganta seca rejeita líquidos. Jogadores se abraçam, fazem um círculo; há os que oram, há os que rezam. Momento bonito, difícil de ver. Impossível de não ver. Difícil de descrever. Impossível também não achar, muitas vezes injustamente, que o locutor, treinado pra ser imparcial, está do lado do outro. A esta altura, a razão já foi embora de vez. A bola fora parece pessoal, parece querer castigar você e sua paixão.

O time ajoelha, o artilheiro se apresenta, o gênio bate. O santo goleiro defende. O estádio explode. A fiel torcida grita, canta, se abraça, chora, parece louca. Na imagem da TV, o menino, que deve ter uns 8 anos, chora e ri, ao mesmo tempo. Nas arquibancadas, bandeiras tremulam. Os rapazes, agora vencedores, se abraçam, pulam em cima uns dos outros. Eu, a quilômetros de distância, abraço a mim mesma. Comemorando a vitória do Galo, comemoro também a minha sobrevivência. Estamos na final. Virão outras batalhas. Outros medos e emoções. Lamento por quem não tem time, nem gosta de futebol. É emocionalmente sofrido, mas é bom demais da conta.

Leda Nagle é jornalista, escritora e apresenta na TV o ‘Sem Censura’ | E-mail: comcerteza@odia.com.br

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