Por raphael.perucci

Outro dia, lendo uma crônica do querido Ruy Castro, ‘O Ovo na Legalidade’, travei com essas cismas de época e outras proibições. Mais além, entre tantas conclusões, lamento o fim de uma civilização ‘gastronômica’, uma era de prazeres à mesa riscado em vermelho de qualquer receita médica. Um simples pão na manteiga é proibido. Novidades linguísticas, como gordura trans e glúten, incineram o pobre paladar tascando a faca de amidos e carboidratos.

Teria sido a urgência do Todo Poderoso de criar o mundo em sete dias, guardando pra ressaca as decisões mais calóricas? Salivo com peles de galinha e cristas de picanhas, mas o limite é uma lambida na foto que anuncia promoções do mercado. Chocolates, somente depois de alta porcentagem de cacau e, no caso de um viçoso azeite, acidez mínima, “zero-dois”. Aonde já se viu? Na verdade, essa obsessão por proibir é quase patológica.

Geralmente a mesa que te agrada no restaurante já está reservada. Desde que abriu, reparei. Instrumentos sonoros em botequim: proibidos. Beber cerveja na mureta da Urca, no melhor bar do bairro, anda perigando de ser excluído das nossas atrações cariocas. O sujeito viaja pelas praças de Roma cercada de mesas por todos os lados, uma Babel de pedidos e beijinhos sem ter fim.

Aqui, o coitado abre o toldo arriscando quatro cadeiras e, antes do primeiro freguês, já sentou a fiscalização lacrando inclusive o café de bule no balcão. Em tempo, soube de fonte confiável que batida de limão, pronta na garrafa, é proibida. Só feita na hora, agora como patrimônio, em forma de caipirinha.

Sou a favor das validades, sim. Não dá mais pra encarar gato por lebre. O organismo se manifesta, se revolta, quer dizer, se revira. Repetitivo, vem à cabeça um salmão que comi numa dessas biroscas da vida. Sinceramente, o gosto se aproximava a uma sardinha pintada de rosa, talvez um pouco mais salgada.

A novidade da semana beira o espanto, um pasmo diante do gol perdido: é proibido entrar sem camisa no Sir Maracanã! Pior, ficar de pé, acompanhando a direção da bola do seu time de coração, também está fora de questão. Proibido. Espero que seja boato, mas até aparelhos que medem decibéis serão instalados nas grades coibindo gritos mais histéricos. Quando eu digo que temos um estádio de gravatas, sou implicante.

Na TV, uma baiana é entrevistada antes de começar a Copa das Confederações: “Ué, cachorro-quente pode, acarajé, não?” Hoje é dia de feira, meu shopping predileto. Na volta, carregado de bolsas e um ramo de flores, o porteiro aponta pro elevador de serviço: “Só por aqui, tá, Seu Moa?”

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