Milton Cunha: Assumir, esconder ou proibir?

Muitos não desejam filhos gays porque estes sofrerão mais na vida, como se filhos heteros não sofressem

Por O Dia

Rio - O adolescente queria fazer uma dublagem tipo drag queen, na festa do colégio. A direção achou melhor proibir, porque seria muito complicado explicar o que aquilo significava. O que eu acho? Que o colégio está certo em considerar que viver é muito complicado. Como explicar para a criança o desejo bichal e artístico de um jovem? Será esta vontade legítima?

Talvez demonizar ou abafar seja mais simples, direto e eficaz. Basta concluir: isto é coisa de anormal. Nesta hora, vai passar pela cabeça da criança todo o filminho de quantos gays ela já percebe: tem o tio esquisito, o coleguinha da sala que desmunheca, enfim, mesmo criança tem veado em 20% do mundo, não é mesmo? E se tentássemos pôr a gayzice dentro do padrão de normalidade, dizendo que o dublador é diferente, mas merecedor de todo o respeito, e depois perguntássemos porque estes mesmos educadores não acham difícil explicar o mundo das outras performances juvenis? Cadeirante e negro pode dublar o Papa?

Se Joãozinho quer declamar o sermão do jesuíta tal, todos a-do-ram a ideia. Mas quem vai explicar para as criaturinhas que estes padres tentavam arrancar a cultura legítima daqueles índios, eles sim, os donos da terra? Como justificar que Jesus Cristo seria melhor que Tupã, Deus das matas? Se Mariazinha quer interpretar a Leopoldina, os aplausos são gerais e a mãe põe-se a bordar o figurino, luxuoso. Mas quem vai dizer para a garota que a personalidade desta princesa é esquisita, submissa, representando um mundo irreal onde reis eram melhores que os humanos (mas por baixo dos panos eram bem piores); como dizer para a atriz mirim que não era nada bacana ela entubar os chifres que D. Pedro I colocava nela, só para manter as aparências?

Tenho certeza que a resposta mais corriqueira será: isto não é assunto para criança, deixa eles irem se divertindo com Padres e Damas da corte, e quando a hora chegar, e eles tiverem acesso a informação, aí sim terão repertório para julgar e respeitarão, sempre. Mas vem cá, o caso da bichinha Lady Gaga não é igual? Basta dizer que é um ator, um palhaço, um transformista. Criança entende tudo, não precisa de muita coisa porque seus pensamentos são profundos.

Muitos não desejam filhos gays porque estes sofrerão mais na vida, como se filhos heteros não sofressem ou não tivessem as mesmas chances de derrotas amorosas e sociais. Não será escondendo ou proibindo que vamos acabar com os gays do mundo. Temos que inseri-los. O problema são pais e diretores. Aliás, o problema é o adulto inseguro.

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