Por bferreira

Rio - Moro no Leblon, na rua ao lado da do governador Sérgio Cabral, mas estava fora do país nos dias mais tensos. Ainda assim, acompanhei tudo pela internet e pela televisão. As manifestações recentes têm grande importância. Como artista, não quis aparecer nos protestos para não acharem que estou usando o momento em causa própria. Nunca gostei disso: na minha carreira, fiz várias músicas ditas engajadas, que se opunham à ditadura. Na época das Diretas, eu estava lá em tudo quanto é comício, andava muito com o Ulysses Guimarães, mas sempre me escondia das câmeras. Podia ter pegado carona quando minha música ‘Anunciação’ foi apontada como um dos hinos daquele momento (interpretaram que o refrão “tu vens, tu vens...” era a democracia chegando), mas sempre tive vergonha de usar isso a meu favor. Pela internet vi que outra música minha, ‘Tomara’, foi usada em vários cartazes pelos manifestantes no momento atual.

Na época do festival de Woodstock, eu era estudante e participei de um curso na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Lá, eu tocava violão nas praças, até que fui entrevistado por um jornal local. Quando perguntaram que tipo de música eu fazia, disse: “Música de protesto”, afinal, era a época da ditadura no Brasil. Acabei chamado de Bob Dylan brasileiro na matéria!

A ditadura não acabou: ainda temos resquícios dela. Como cidadão, tenho minha reivindicação: política com honestidade! E não devemos cobrar isso só dos políticos, mas também dos donos do dinheiro que corrompe os políticos. De onde vêm as verbas não declaradas para as campanhas, por exemplo? Quem deu? E por que deu? É tão difícil assim de esclarecer isso? Sou contra esse tipo de financiamento de iniciativa privada. O nome já diz tudo: se é privada, provoca dejetos! Uma amizade que paga um chope ou um almoço, tudo bem... mas amizade que dá R$ 15 milhões, não existe. Descarga neles!

A diversidade de reivindicações mostra que o Brasil tem muitos problemas. Vejo o povo se posicionando e acho que vamos evoluir muito depois disso tudo. Acredito que as pessoas de bem que estão na política poderão contribuir, e é preciso que seja aprofundado o gosto popular pela política, para que essas reivindicações não sejam algo apenas pontual e, sim, uma crítica constante de modificação de todo o sistema. Nosso País está mudando, e isso é muito bom! Não esqueçamos que toda a sociedade tem seus direitos e obrigações. Uma nação solidária começa com cada um de nós.

Alceu Valença é cantor e compositor

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