Editorial: Apuração cômoda e suspeita

Comissões Parlamentares de Inquérito estão previstas no Brasil desde a Constituição de 1934, mas só se tornaram populares nos anos 1990

Por O Dia

Rio - Comissões Parlamentares de Inquérito estão previstas no Brasil desde a Constituição de 1934, mas só se tornaram populares nos anos 1990, com os escândalos de PC Farias e o dos Anões do Orçamento. Mais recentemente, invadiram o cotidiano com as investigações do Mensalão, em 2005. Podem convocar testemunhas e têm como quebrar sigilos bancário e de dados. Carregam um paradoxo: ao mesmo tempo que sugerem um poder saneante contra malfeitos, impregnaram-se de impunidade, dadas as incontáveis pizzas assadas nos altos-fornos do poder.

Ontem uma CPI cumpriu este roteiro dúbio, mas a pressão popular pode desentortar os caminhos. A comissão designada na Câmara de Vereadores para tentar abrir a caixa-preta das empresas de ônibus que rodam no Rio estranhamente pôs na presidência um aliado da prefeitura que nem sequer tinha assinado o pedido de criação. Questionam-se, de cara, as intenções e as ‘isenções’ desse grupo, considerando as relações extremamente amistosas com os poderosos das viações.

A juventude que desde quinta-feira ocupa o Palácio Pedro Ernesto percebeu a tentativa de desvio e acirrou os ânimos no plenário, e o que se viu a partir daí foi um espetáculo deplorável, com tumulto, agressões, bravatas e loas antidemocráticas. Mesmo assim, não se vislumbrava uma solução para o impasse. Espera-se, contudo, que a pressão popular conduza os trabalhos da CPI — elogiada neste espaço esta semana, frise-se, pela iniciativa de abrir as sessões para o cidadão comum se manifestar — para que tudo não seja uma histriônica encenação às câmeras com resultados inócuos.

Últimas de _legado_Opinião