Jaguar: Carlinhos de Oliveira

Procurando por uma entrevista do Zé Kéti na minha desfalcada coleção do ‘Pasquim’ — Lei de Murphy —, não achei o número, devo ter emprestado para alguém

Por O Dia

Rio - Procurando por uma entrevista do Zé Kéti na minha desfalcada coleção do ‘Pasquim’ — Lei de Murphy —, não achei o número, devo ter emprestado para alguém. Em compensação, na edição 875, de 1986, descobri um texto de Oliveira Bastos sobre o cronista e boêmio Carlinhos de Oliveira, que tinha acabado de falecer: “A morte do escritor José Carlos de Oliveira nos coloca diante do drama dos que vivem intensamente em função de um projeto não sancionado pelos fatos. Rimbaud queria ficar rico e conseguiu apenas ficar doente no comércio clandestino de armas, mas a literatura já não o interessava.

Carlinhos jogou-se no comércio clandestino de emoções, não para ficar rico, mas para escrever um romance, ao qual nunca teve acesso. Na mesma linha de tragédia pessoal, lembro o antropólogo Eduardo Galvão, que passou a última metade da sua vida na selva amazônica recolhendo material para provar uma hipótese sobre parentesco, nunca confirmada pelas suas pesquisas. Todos viveram, como no verso de Manuel Bandeira, a vida que poderia ter sido e que não foi. A escolástica medieval tinha uma dimensão do tempo onde se recolhiam (e quem sabe frutificavam?) esses projetos frustrados: o futurível, ou seja, o futuro engolido pelo passado, por falta de oportunidades concretas. A grande obra de Carlinhos foi o seu vôo impossível. O vôo da vida absurda”.

Na edição 875, a chamada de capa é ‘Dez Anos sem Madame Satã’ (com foto da estreante Elba Ramalho exibindo pernas deslumbrantes na peça ‘A chegada de Satanás ao Inferno’). E mais: entrevistas de Ana Maria Tornaghi e Roberto Dinamite, artilheiro do Vasco (“O maior problema do futebol brasileiro são os dirigentes, que não têm nada a ver com o esporte e só querem aparecer”), artigos de Newton Carlos, Sandro Moreyra, Leonel Brizola, do cacique Juruna esculhambando a Funai, dica do Albino Pinheiro (falando sobre seu show com Paulinho da Viola), cartuns do Nani, Bione e, pra variar, do Jaguar. Quase 30 anos! O tempo avoa.

E-mail: jaguar@odia.com.br

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