Adoro efemérides. Aproveito todos os ganchos de datas para, por exemplo aqui no jornal, pedir que façam um caderno comemorativo com as redondas... cem anos de vida de fulano (o poeta Vinicius de Moraes faria 100 anos no próximo 19 de outubro) ou morte de cicrano ( publicamos uma bela série de um século sem Machado de Assis, em 2008, que nos rendeu um Prêmio Embratel). Hoje, 12 de agosto, é o Dia Internacional da Juventude.
Algumas marcas do calendário, porém, parecem-me não serem tão naturais ou não fazerem sentido: Dia dos Namorados, das Mães, dos Pais — que foi ontem. Um marco na agenda que seria para homenagear alguém tão importante e que vira sofrimento e sinônimo de shopping lotado. Tais datas poderiam ser rebatizadas de Dia do Comércio 1, Dia do Comércio 2, Dia do Comércio 3... Perde-se o foco no homenageado. Não tem problema se você ficar endividado para dar um presente, e não pode ser um presente barato, senão pega mal, ou você é um filho pão duro, seu pai merecia tão mais. O amor diário e estar disponível a qualquer hora não importa.
Então é preciso transformar o seu dia num inferno como no Natal, que tem gente que vai a quatro casas por noite, para não ficar mal com ninguém. E um não aproveita o outro, não se para para ouvir o que a pessoa tem a dizer, para saber com calma como têm sido seus dias, seus problemas, suas últimas viagens, provar sua mais nova receita. Poucos abrem o coração. Fora que essas datas servem para frustrar quem não possui o ser-tema do dia: os sem namorados sentem-se péssimos amantes, os órfãos ficam sós, caçando programas, ou veem-se em busca de um pai ou mãe emprestados.
Apesar de ter perdido meu pai muito cedo, aproveitei intensamente a sua convivência, de forma que várias datas com ele foram marcantes e ele permaneceu vivo diariamente anos depois, até hoje. Foram só 15 anos de convivência, mas tenho uma história por dia pra contar, de tanto que curtimos um ao outro. Se algumas dessas foi no Dia dos Pais, não lembro, mas provavelmente não. Todo dia é dia de abraçar e honrar pai, mãe, namorado, avó, avô, filho e filha.
Eu e mais alguns amigos que perderam os pais costumávamos nos reunir num almoço de Dia dos Sem Pai todo segundo domingo de agosto, pois, à nossa forma, conseguimos lidar bem com as perdas e sabíamos que todos os outros iam estar envolvidos com suas famílias nesse dia. Então driblávamos o calendário com ironia, mas não deixávamos de exalar amor, ficávamos em comunhão. Reunir-se com a família é importante, mas devemos ter isso na cabeça e ser amáveis sempre, independentemente dessas invenções burocratas.
Publicado 11/08/2013 23:47