Por bferreira

Rio - A justificativa do “cachaça” valia uma placa:

— Bebo pra ficar ruim! Se fosse pra ficar bom, tomava remédio!

E saiu rindo sozinho da própria piada, perdigotos em cascata feito um umidificador de farmácia.

O que me refletiu no espelho foi o passado. Não existem mais bêbados plantonistas nos botequins vagabundos da nossa vida. Aquela figura diária, face vermelha, um certo inchaço nas bochechas e o contínuo cigarro aceso, sempre filado do incauto freguês. O penteado reage feito um cronômetro das suas doses: amanhece gumex em fios alongados por pentes Flamengo e, repartido ao fim da tarde como um toldo de feira, é o retrato fiel do maestro emocionado.

Pensando bem, tudo acabou. Na viela da memória, senti um vazio de cotidiano, o total apagão no vale da minha juventude.

Sumiu o mandiopã, tantas vezes escaldado num óleo escuro de desconhecido colesterol. Da inocência, perdi o Ki-Suco, uma anilina benéfica à minha glicose. Não encontro mais ninguém amargoso com o óleo de fígado de bacalhau, duas colheradas pra dar ao teu hálito o apelido de “cais do porto”. Aliás, as câmeras de segurança, instrumento inventado por programas sensacionalistas, inibiram as famosas casquinhas no armazém, fingindo provar a procedência do peixe natalino.

Nesse túnel do tempo, um conduíte por onde dois cientistas moldavam a minha imaginação, fui encontrar a inofensiva coleção de bonecos do arroz Brejeiro. Todos com chapéu de aba curta menos o “marinheiro”, quebrado e com a perna de pau. Sinceramente, eram mais amigáveis que esses Chucks psicopatas.

Se alguém observar nessa crônica sintomas de nostalgia, aceito o diagnóstico. Por que perder laudas lamentando o fim do casco escuro, tanto das cervejas quanto de refrigerantes, Crush, a Mirinda ou o internacional Seven Up? O inconsciente acena que alguma coisa “tá” fora da ordem. No baú da felicidade, velhas portas da esperança. Folheio o meu amarelado caderno encapado, dos tempos de uniforme e merendeira, e encontro uma redação sobre o dia do soldado, 25 de agosto.

A caligrafia desconhece teclados ou mouses sem fio. A própria data perdeu a cor, feito o índio, o dia da criança, o arroz doce no corre-corre do intervalo.

O “cachaça” resmunga: — Cadê o ovo colorido?

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