Por bferreira

Rio - Ao comentar episódios ocorridos em partidas do fim de semana, Márcio Guedes ressaltou, aqui no DIA, que a ética não anda em falta só em Brasília. É duro admitir, mas muitos dos nossos piores parlamentares apenas aplicam práticas consagradas nas ruas e nos estádios brasileiros.

Não há muita diferença entre o deputado-presidiário que chora inocência e o jogador que rola dez metros pelo campo depois de NÃO levar uma cotovelada do adversário.

Para ficarmos no futebol. No Maracanã, Rogério Ceni pôs em prática uma boa maneira de impedir derrotas. Basta que alguém — gandula, massagista ou torcedor — arremesse uma bola no gramado quando seu time estiver ameaçado. O goleiro do São Paulo tratou de, pessoalmente, melar o ataque do Botafogo. Se a moda pega, se ele não for punido, há o risco de todos os jogos ficarem no zero a zero.

Willian, do Cruzeiro, foi outro que demonstrou a dubiedade da palavra esperteza e transformou em armadilha o gesto de devolver a bola para a defesa do Vasco; pior é que o jogo havia sido interrompido em meio a um contra-ataque do time carioca. Há umas três semanas, em jogo contra o Atlético Mineiro, o goleiro-milagreiro Jefferson simulou uma queda para ganhar tempo. Se deu mal: recebeu um cartão amarelo e tomou um gol nos acréscimos provocados, em parte, pela cera.

A lógica do ‘fair play’ deu margem a outra estratégia para a interrupção de jogos. Em meio a um ataque do time A, um jogador do time B simula um ataque cardíaco associado a uma convulsão capaz de assustar plantonista de UTI. Alguém avisa o juiz, que para o jogo. Trinta segundos depois, o ex-moribundo levanta-se como se tocado por uma luz divina.

É tanta encenação que seria até o caso de os tribunais esportivos começarem a punir, baseados em imagens de TV, os artistas disfarçados de atletas. Caso contrário, diretores de teatro passarão a integrar o staff das equipes, ensinarão técnicas mais convincentes de cair em campo e simular contusões. Um troféu de melhor ator passaria a ser entregue naquela cerimônia de premiação no fim do ano. Outra possibilidade é criar uma classificação indicativa para jogos de futebol, a exemplo do que ocorre com filmes e novelas. Assim, menores de 14 anos seriam impedidos de ver as partidas. Isto, para evitar que aprendam a aceitar como normais e exemplares atitudes vergonhosas tomadas por muitos de seus ídolos.

Fernando Molica é jornalista e escritor | E-mail: [email protected]

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