João Baptista Ferreira de Mello: Colonizados in Rio

A MPB perdeu fôlego, harmonias, tons e a alegria da sua brasilidade porque passou a ser mera desconhecida

Por O Dia

Rio - Há quanto tempo você não ouve MPB no rádio ou na TV? Por que não se faz música japonesa ou marroquina no país? A resposta é simples: aqui não se escuta isso. Então, ninguém cria ou se inspira em ritmos desconhecidos. A MPB perdeu fôlego, harmonias, tons e a alegria da sua brasilidade porque passou a ser mera desconhecida. Há emissoras que se dizem promotoras da música produzida aqui na Terra de Santa Cruz. Mas executam pop, baladas, funk, rap de falação acelerada e outros derivados do rock and roll (por vezes, abrem alguma exceção para um artista pós-1980 e olhe lá).

Com efeito, a melhor música feita no país foi dos anos 1920 até 1978. Pergunte a um jovem se já ouviu cantores e músicas consagradas de nosso cancioneiro popular. Sim, alguns argumentarão que, na Lapa e na Gamboa, cultua-se a brasilidade dos tambores, batidas sofisticadas e batuques contagiantes. Mas trata-se de uma ressonância que não ultrapassa os limites desejados.

Algo está errado! Se duvidar, ligue o rádio neste momento. Algumas emissoras nunca, jamais executam qualquer música em português, nem mesmo essas excrescências tidas como ‘rock made in Brazil’.

No Carnaval, procure lembrar: quatro ou cinco emissoras de rádio se dedicam a Momo, seja com marchinhas e sambas ou comentários sobre os desfiles. Isto contrasta com a ressurreição dos velhos carnavais, nas ruas lotadas pelas multidões nas bandas e blocos, como o Cordão da Bola Preta e seus dois milhões de foliões.

Consideremos o abominável Rock in Rio. Muitos dirão: “É apenas rock and roll, baby”. Todavia, o país dos colonizados, em meio a uma enxurrada de música estrangeira, resolve fazer um megaevento com todo esse lixo colonizado e ainda se arvora em fazer campanha contra o lixo. Como assim, se é o próprio lixo musical e de outras substâncias nocivas? Em suma, é preciso clamar: misericórdia! A julgar pelo ‘bate-estaca infernal’ de outras culturas, a MPB está morta.

João Baptista Ferreira de Mello é professor e coordenador dos Roteiros Geográficos do Rio, da Uerj

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