Fabio Barbirato: A televisão brasileira e os transtornos mentais

Segundo o último censo do IBGE, quase todos os lares brasileiros têm televisão, mais que máquina de lavar ou geladeira

Por O Dia

Rio - Segundo o último censo do IBGE, quase todos os lares brasileiros têm televisão, mais que máquina de lavar ou geladeira. No entanto, diferentemente dos demais utensílios domésticos, ele forma opiniões. Daí a responsabilidade dos profissionais que criam conteúdo para as emissoras. Se falarmos em telenovelas, a responsabilidade cresce ainda mais. Elas podem ser poderosas aliadas em campanhas educacionais, como já ficou provado com o aumento de doações de medula na exibição de ‘Laços de Família’ e a prisão de quadrilhas internacionais de prostituição enquanto ‘Salve Jorge’ estava no ar.

bordar assuntos relacionados à medicina em obras de ficção é sempre polêmico. Em um país tão desassistido como o Brasil — está aí o desastrado programa federal Mais Médicos que não nos deixa mentir —, o que é dito em uma telenovela vira verdade absoluta nas grandes cidades ou nos mais impensáveis rincões do país.

A novela ‘Amor à Vida’ tem um hospital como um de seus principais cenários. O estilo de vida dos médicos, os beijos e cenas de sexo em consultórios e salas de espera, as posturas éticas, nada que vai ao ar corresponde à vida real dos profissionais de medicina. Até aí, lamenta-se, mas respeita-se. Novela é obra de ficção e precisa criar seus climas, ainda que sacrificando a realidade.

O assunto fica bem mais grave quando o foco da distorção é o procedimento médico. Não há possibilidade de a personagem Paloma, interpretada por Paolla Oliveira, ser tratada com tamanha truculência em uma clínica psiquiátrica, seja ou não doente. O mesmo ocorre com a personagem autista Linda, vivida pela atriz Bruna Linzmeyer. O autismo ocorre em diferentes gradações, conforme cada caso, e há muitos autistas produtivos e independentes, totalmente diferentes da forma caricata como é retratada na trama.

Que fique claro: a classe médica repudia qualquer tipo de censura ao conteúdo televisivo; pelo contrário, torce para que mais transtornos sejam abordados em novelas. Porém, que eles sejam reproduzidos com a fidelidade que o público e os médicos merecem.

Fabio Barbirato é chefe da Psiquiatra Infantil e Adolescência da Santa Casa

Últimas de _legado_Opinião