Moacyr Luz: Os intocáveis

O relógio na parede, implacável, me cutuca com o ponteiro dos minutos, quase um cuco invisível: — Moa, a crônica!

Por O Dia

Rio - O relógio na parede, implacável, me cutuca com o ponteiro dos minutos, quase um cuco invisível: — Moa, a crônica! Uma semana de risos e emoções, mas as palavras fogem da cabeça pelos vãos em branco dos neurônios bebidos. Fiz uma ronda por bares intocáveis, desses onde só o dono abre a caixa registradora, indo desaguar em Marechal Hermes, com certeza, o mais belo bairro desse limite suburbano. Uma estação de trem preservada e prédios baixos, casas com muros, não muralhas.

Assim, conheci a Adega Tudo do Mar. Inacreditável. Cardápio nas mãos, um susto com a quantidade de marítimos oferecidos. Decorado com peixinhos de madeira, os vivos saem em fartas porções da arejada cozinha no quintal. Estive na região pra tratar de samba, mas o bar me comoveu. Vale a dica. São caminhos que só a calma nos deixa perceber.

Numa andança pra me perder, fui sentar do Bar do Seu Jóia, esquina da estreita Rua da Conceição, quase Saúde, Praça Mauá ou Central do Brasil, sei lá. Seu Jóia, ainda vivo, tinha um mau humor necessário aos craques desse negócio. Na casa, música, só clássica. Um boato da época, anos setenta, fiscais do governo, e ele se apressou em escrever no espelho do salão: — Breve faremos reforma! O aviso resistiu até 2007, ano da sua morte.

Uma coceira do passado me fez subir o Morro da Conceição atras do sossego da Rua Jogo da Bola. No meio da mínima via, o Bar do Seu Odilo. Serginho, o herdeiro, prefere o silêncio da fiel clientela à efervescência da Lapa ambulante. Venho classificando essas “catedrais” de Intocáveis. O sentimento pode ser ampliado a outros ícones. Não consigo pensar em outra embalagem pro Biscoito Globo. Arriscaram mudar a fórmula do mate na praia, criar leis sanitárias pra um hábito que saciou muitas gerações cariocas, e nada deu certo.

Eu sigo atrás da Granado, bela réplica da Lavradio, bem perto do Armazém do Senado, balcão centenário, escada alta pra alcançar o garrafão no pé direito. Peço “bença” ao Paladino e, se usasse chapéu, estaria nas mãos por reverência aos bares Brasil e Luiz.

Inspirações de Lampeduza, “Tudo deve mudar pra que tudo fique como está”, o Rio, mesmo com vidros quebrados, reflete encontro de passado e presente como dois orgulhos pro futuro.

Último parágrafo. Atravesso o Dois Irmãos pra prestigiar a festa organizada pelo craque Junior, na Barra. Samba da Sopa. Vale o escrito: — Time de primeira e repertório na cadência do maestro que tantas vezes regeu o meu coração de torcedor. A cara do Rio!

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