Jaguar: Paris é um porre

Nem aos mensaleiros desejo isso: ir à França sem poder beber sequer uma taça de vinho

Por O Dia

Rio - No sentido de algo muito chato. No meu caso, proibido pelos médicos (e pela mulher, que — ai de mim — é médica) de chegar perto de qualquer bebida alcoólica. Nem aos mensaleiros desejo isso: ir à França sem poder beber sequer uma taça de vinho. A salvação de la patrie foi a cerveja sem álcool Buckler.

Sempre curti a famosa frase de De Gaulle: “O Brasil não é um país sério.” Evidentemente o general — que sempre achei um chato de galocha — queria zombar da gente. Mas o fato de não sermos sérios, e, sim, tremendos gozadores — direitos autorais para Aldir Blanc — me parecia ponto a favor, esse nosso lado Macunaíma, a capacidade de gozar nossos defeitos tanto quanto as mancadas alheias. É isso que nos diferencia dos países e pessoas que se levam a sério. Um exemplo: a crônica da semana passada foi ilustrada com uma foto minha numa cadeira de rodas no Aeroporto de Paris. Quando voltei e fui flagrado flanando de sandálias pelo Leblon sem cadeira de rodas (em francês fica mais chique, ‘chaise aux roulettes’), levei uma bronca de um sujeito que achava falta de respeito aos leitores, entre os quais ele não deve mais se incluir.

Tentei explicar sem sucesso que a ideia não foi minha. A moça do balcão da Air France no Rio, ao ver aquele velhinho de 81 anos e quebrados carregando as malas, perguntou se eu queria uma cadeira de rodas na chegada em Paris. Lembrei-me das vezes que desembarquei lá. Os quilômetros que andamos naquele aeroporto são tantos quanto os percorridos pelo Neymar num jogo. Eu disse que sim, queria a cadeira. E, confesso, foi uma das melhores escolhas que fiz na vida. Ela me esperava na porta do avião, conduzida por Jeanne, uma bonita haitiana mas, pela velocidade com que empurrava a cadeira pelo aeroporto, tirando finos em bandos de japoneses, desconfio que era da Jamaica, terra de Usain Bolt e outros velocistas.

Pensando bem, a viagem não foi tão chata assim. Já tinha visto, nas outras vezes, a Mona Lisa, os museus, o Arco do Triunfo, a Torre Eiffel, toda aquela tralha cultural e turística. Mas nunca tinha visto um corvo, igual ao do poema de Poe; não disse “never more”, apenas crocitou no jardim do hotel em Rennes. E um chinês todo de branco passou com uma baguette debaixo do braço, na frente da nossa mesa no Café de Flore.

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