Moacyr Luz: Cosme e Damião

Marias-moles e doces de abóbora perderam lugar pros bombons sofisticados, brinquedos de mola ou roupas de bebê

Por O Dia

Rio - Estamos em setembro, o mês da primavera e dos irmãos Cosme e Damião. Estudaram Medicina na Síria. Imagino hoje, tubos de ensaio em pleno genocídio religioso. Ainda no consultório das hipóteses, fugiriam pro Brasil, mas seriam arguídos na cachoeira, afogados em qualquer descrença burocrática.

Esses santos encheram de vida e açúcar a minha infância nas paralelas ruas da Vila Aliança, comunidade criada em Senador Camará, antiga linha 41 do subúrbio da Central. Apesar das casas iguais, perfil natural de um conjunto habitacional, algumas se destacavam na comemoração aos gêmeos, pelos doces oferecidos. Promessas transformadas em línguas de sogra, suspiros e pirulitos, guloseimas sem pompa de marcas, cobertos de recheio de fé, o amor.

Um corre-corre fremente, as rádios repetiam atenção aos motoristas com a cegueira glicosada das mães onipresentes, um vai e vem desesperado pelos saquinhos de papel fantasia.
Aos poucos, marias-moles e doces de abóbora perderam lugar pros bombons sofisticados, brinquedos de mola ou, mesmo, roupinhas de bebê, um mimo mais exigente.

A modernidade descobriu a cárie, e a inocência perdeu-se nos molares. Evangélicos botaram sal e pimenta nas balas Juquinha — “quando está chupando bala, não fala. Nem da bola, nem da bala”. As crianças, temendo o amargo, recusaram o sabor de toda história.

Eu, crescendo entre igrejas e meus santos de devoção, continuo credo aos unguentos, proteção contra doenças da terra. E, claro, um caruru, receita à base de quiabo, ideal no combate à diabetes.

A pé, na mesma calçada, sem largar de mão os salões de botequim, deixo uma pro milagroso. Todo bar que se preza tem São Jorge ou Cosme e Damião zelando pelo estabelecimento. O Guerreiro tem a espada. Os irmãos, as balas sobre os pés, sempre iluminados.

Lembrei da Dona Natalina, carinhosa dona do Bar Varnhagem, falecida há poucos dias. Sentados, eu, Jaguar e o craque Chico Freitas notamos imagem guardando o bar. Chico, atento, antecipou-se:

— Dona Natalina, aquela redoma ali, um manto rosinha, é Santa Bertília?
— Meu “senhore”, faz-me o “favore”, é São Miguel Arcanjo! Sou devota!
Pra não perder a viagem, bom carioca, retribuiu:
— Bom, também!

Com muita honra compus com o mestre Nei Lopes um samba chamado “Vinte e Sete Zero Nove”, uma homenagem à tradição. Salve, Cosme e Damião!

Últimas de _legado_Opinião