Karla Rondon Prado: Direito ao batismo

Ora, se o sujeito é ateu e resolve iniciar o filho no Catolicismo, então ele não pode? Discussão infrutífera, mas cabe reflexão

Por O Dia

Rio - Batismo de fogo, de voo, de ar, de mar, de mergulho ou o primeiro sacramento na Igreja Católica. Batismo, sinônimo de iniciação, cerimônia de estreia, pública ou não, religiosa ou não. Parece-me que todos têm direito a esse ritual em todas as instâncias. Mas, numa época em que o Papa Francisco defende a igreja “de portas abertas”, as burocracias longe do Vaticano ainda impedem uma aproximação do Catolicismo nas mais distantes (de lá) paróquias.

“É difícil ser cristão”, ouvi de um amigo ao sairmos de uma igreja na Zona Sul do Rio, depois de buscar informações para um batismo. Chegam a ser caricatos e na contramão da história que o atual Pontífice tenta construir o atendimento e as exigências para que uma criança seja batizada. “Aceite, para a Igreja só existem famílias perfeitas”, disse outro.

São práticas antiquadas enraizadas, dignas de beatas de novelas de Dias Gomes. Até João Paulo II pregou acolhida aos divorciados e no Rio de Janeiro se exige certidão de casamento de padrinhos. Fora o tom carregado de julgamento da atendente ao explicar que a madrinha de consagração tem que ser uma pessoa devota a Nossa Senhora: “E se não for, a sua consciência é que vai dizer”.

Ora, se o sujeito é ateu e resolve iniciar o filho no Catolicismo, então ele não pode? Admito, essa discussão é infrutífera, mas cabe reflexão. Sem os dogmas não se sustenta a Igreja. Religião, política e futebol não se discutem. Frases absolutas. Mas quem quer se manter no cristianismo deve, sim, exigir portas abertas para a fé, como prega o Santo Padre.

Outro dia, uma mulher que já sofre com a ausência física, emocional e financeira do pai da filha ainda teve que driblar algumas igrejas para conseguir batizá-la sem o pai presente, sem sua documentação. Em maio, o Papa defendeu o batismo dos filhos de mães solteiras, chamando de hipócritas os padres que se recusam a batizar crianças nascidas fora do casamento, criticando os que tentam ser controladores da fé e não facilitadores. A linha deve ser esta, o pensamento tem que acompanhar a linguagem do mundo contemporâneo. Ou mude de doutrina...

No último dia 11, Francisco perguntou em audiência geral quantos se lembram de seu batismo. “Quantos aqui se recordam? A data do batismo é aquela na qual a mãe Igreja nos fez nascer. É lindo. Perguntem-se: ‘Qual a data do meu batismo?’ Isso é muito bom, para festejá-lo. Para agradecer a Deus por este dom. Vocês vão procurar? Façam esta tarefa.” É difícil um líder falar e não ser acompanhado, pois liderança não se impõe, é uma conquista. Assim eu aprendi. Então, pergunte-se: quando você se entregou para algo e recebeu de volta amor incondicional, tendo lugar garantido como em coração de mãe? É neste achado que devemos nos apegar.

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