Por thiago.antunes

Rio -  Os atletas estão perfilados à beira do gramado. Todos têm a mesma visão, a banda militar: naipe de pratos e um ébano clarinete solando o Hino Nacional. A televisão, quase em plano americano, aproxima na tela a fisionomia da equipe e, nesse instante de expectativa, nasce a constatação: — Na minha juventude, conseguia identificar o Merica na passeata dos Cem Mil. Hoje, se um ídolo desse elenco esbarrasse em mim, no elevador do prédio residencial, não saberia identificar. São ícones, referências. Quando o álbum sai nas bancas, o craque já veste outra camisa. Também pode ser o motivo da pouca intimidade, ou o passado incansável reverberando na memória.

Nesta fase sommelier, à procura da taça perfeita, lembrei das canecas de louça branca, imperando nos balcões cariocas. Época do bacalhau em sua Monarquia exercida por reis e súditos nos bairros do subúrbio. A borra vermelha descendo pela borda eternizando um paladar de toda a vida.

Continuo nostálgico. Um renomado amigo decretou: - Quem vive de resgate é bombeiro! Pera lá! Os programas musicais, já em cores, eram regidos por unanimidades como Alcione, Chico & Caetano, pra não citar, em preto e branco, Elis Regina, Jair Rodrigues e Ivan Lins. Quase todos ainda novidades, no estilo. O que há de tão urgente na modernidade?

Pensei em Andy Warhol, ativista multimídia americano que, entre latas de sopa e rostos pintados, cunha uma frase definitiva — no futuro qualquer um será famoso por 15 minutos. Hoje, um rodízio sem espetos e o tempo profetizado ainda menor, um sopro de calebridades cobra no invisível taxímetro pirata a permanência em sua sala de estar. É por essas e outras que o ícone foi pro beleléu.

E pensar que a crônica brotou por conta de um desconhecido ponta direita do meu escrete preferido. Camarões transgênicos, de cativeiro, fazenda de ostras, berinjelas em pílulas, sabores que venho convivendo. O meu tempo de cerveja preta clareou, reconheço. Ando às voltas com downloads e backups, ouvindo com dias contados os CDs que também pulam feito elepês, até mudar a discoteca pra outro substantivo fonográfico, uma fonoteca qualquer.

De virtual, só a voz no metrô anunciando a próxima estação. Não sou louco de lamentar o fim do lotação. Nem de trocar a Land Rover do amigo Giba pela Rural de um tio criado em Niterói. Controle remoto nas mãos, descubro que estou torcendo pro time errado! O Flamengo veste azul e amarelo, cores de homenagem, sei lá. Até a bola, laranja, preta e gema, me passou despercebida. Ah, minhas referências.

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