Por tamyres.matos

Rio - Rápido, liguei para o adorável Ney: “Estou vendo a cena do documentário sobre a vida e a obra do Keith Harring, com você seminu de índio no palco, e ele pintando alucinadamente um quadro para você, durante um show. Ney, por que esta obra incrível não está na parede da sua casa, bem na cara de todo mundo?” “Ah, Milton, estou há 30 anos cobrando do meu produtor na época, o Mazzola, que ele ache o quadro. Isto é meu, foi pintado para mim, foi no Festival de Montreux de 83; sabe como é vida de artista, tem que viajar correndo, no dia seguinte eu tinha que ir para outro lugar, mas eu fiquei azucrinando a cabeça da produção, porque eu queria o meu quadro, aliás eu quero o meu quadro!”

Na arte do século 20 os historiadores separam o capítulo Keith Harring, e existe a obra ‘Crack is Wack’, pintada nos muros de Nova York como um dos ícones do pós-moderno. Nos anos 70, este jovem artista pintava nas paredes do metrô, era preso, liberado, causava tumulto e acabou caindo nos braços do sucesso (pintou o Muro de Berlim!). Melhor amigo de Madonna, íntimo de Andy Warhol, Grace Jones e fã absoluto dos remelexos do latino Ney, só podia dar nisso, né?

Aliás, eu senti um tesão do Keith, um frisson sexual dele em cima do Ney. Ele pinta embevecido, hipnotizado, e como o quadro apresenta o corpo de Ney com sete cobras e-nor-mes (ui!) saltando dele, e muitas cobras significam desejo sexual, viva o encontro da cobra do Ney com a cobra do Keith, que morreria anos depois, deixando quantidade considerável de obras que hoje valem uma fortuna. Pois fotografei a TV, estou remontando no Photoshop os pedaços do quadro, e vamos exibi-lo na exposição dos trajes do Ney no Carlos Gomes, em janeiro.

Quanto vale aquela pintura em preto e branco, executada numa performance ao vivo, que juntou dois loucos talentosíssimos que quebraram paradigmas, diante de uma plateia superlotada? Toda a parte de cima da obra apresenta uma enorme tarja assinada por Keith, com os dizeres: “For Ney Matogrosso, 1983!” Pode-se supor que o povo do festival achou que, como Keith já era um sucesso considerável, a obra pertenceria ao Festival e não ao artista. Hum, hum...

Meu amor, alguém importante da organização deu a Elza (roubou) no quadro. Pode ter tirado a tarja de dedicatória, mas, como é um quadro específico, porque Keith pintou poucas cobras, talvez seja fácil rastrear o paradeiro. Mas aí tem que contratar advogado nos EUA, e Ney disse que não vai entrar nesta. Mas que ele quer o quadro, ah, quer. Com a palavra, Mazzola...

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