Por thiago.antunes

Rio - Duque era o nome do meu cachorro de infância. Hoje, do vizinho de porta, escuto os latidos de Flofy, um barão qualquer da raça dos Bull Terrier Inglês. Essa embromação toda tem sentido:
— Na Europa, o clássico permanece.

Depois de alguns dias zanzando por esse continente, admirando prédios de seiscentos anos e pontes sobreviventes de duas guerras, mais lamento o fim de antigas referências urbanas na nossa cidade. Em Viena, o sujeito entra numa farmácia atrás de um analgésico e se depara com uma placa em bronze: — Aqui Mozart comprou sua primeira bala de alcaçuz antes de sentar no piano e compor “Apolo”, pra dois oboés.

Ídolo por ídolo, o mesmo sentimento tem um apaixonado sentando num bar de esquina ao encontrar a menção: “Prestes e fuzilar o Chile em 1962, Garrincha caprichou no uísque por esse balcão”. No caso de Amadeus, o composior, por aqui vendem-se ingressos pras suas óperas feito os papeizinhos de “jogo búzios e tarô” nas calçadas de Copacabana.

Um amigo, recém-falecido, Jorge Ferreira, mineiro de certidão, mas louco pelo Rio, me mostrou fotos de um antigo Mercado Municipal aos pés da Praça XV, quase um monumento, construído em ferro e madeira, que, se preservado, teria a importância de um “Ver-o-Peso” do Pará ou o charme de “La Boqueria” espanhol. Das marretadas sofridas, ainda resta uma coluna onde se encontra o Albamar, o restaurante.

Em Praga, uma taberna chamada Três Avestruzes me chama a atenção. Cadeira pesada e mesa com um palmo de espessura, arrisco falar em tcheco, idioma que economiza a letra A e tem uma dicção indecifrável na ponta da língua. Resumindo: em 1606 já se comia alguma coisa naquela pequena sala. Talvez até os pescoçudos de penas cobiçadas entraram na faca.

No Rio, de outra plumagem, o Penafiel, da Senhor dos Passos, caiu feito ações batistas. Suas panelas areadas sumiram junto às lentilhas e o feijão manteiga. Nesta segunda-feira toco no Renascença. Espero que o Andaraí ainda esteja no mesmo lugar.

E-mail: [email protected]

Você pode gostar