Por adriano.araujo

Rio - Poder público, poder paralelo. Ambos não deveriam se relacionar. São opostos, inimigos. Ao que assistimos nesses tempos — ao contrário do que deveria acontecer — é exatamente a comunhão maléfica entre eles, uma amizade indevida. A máquina do Estado funciona em prol de interesses particulares das autoridades supostamente públicas. Assim, equiparando meliantes a governantes, eles produzem um cenário social de descrédito no poder com a desestabilização da ordem pública. Quando assistimos a grupos como os black blocs atacando violentamente a polícia, percebemos, no contra-ataque, a reprodução vândala dos atos sem ética, sem estratégia, sem inteligência e sem limites nas suas ações que criam uma igualdade onde deveria haver diferença. São como os black blocs, armados e atiram a esmo, arma numa mão e pedras, na outra. Não há estratégia na forma de coibir atos de vandalismo. Violência não se contém com violência, ao contrário, só se instiga.

Buscando uma leitura subjetiva, percebemos que os bancos têm sido alvo de destruição, talvez em resposta a destruição que o sistema financeiro produz nos bolsos da população endividada e, por que não?, saqueada pelas altas taxas de juros. Nas ruas, homens de caras tapadas, nos cargos de comando do Estado, ternos e falas bonitas tentam ocultar os bandidos. Quanto mais nos escondemos, mais nos revelamos. Não adianta, não há crime perfeito. São fiscais, policiais, políticos, juízes, presidentes, uma enorme lista de autoridades que já fizeram conexão com o crime. Claro que muitos negam. Os pegos em flagrante escondem o rosto e a vergonha com camisas e braços. Não querem ser identificados, os black blocs, também não! Os acontecimentos sinalizam que o poder paralelo se constitui na interseção entre ambos. É o filho bastardo e ilegal do poder público. A mãe Lei e o pai Estado, infelizmente, não estão podendo dar o exemplo adequado!

Fernando Scarpa é psicanalista

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