Por bferreira

Rio - A gota de lágrima tombou e espalhou-se, escurecendo o papel do jornal. Eu lia o artigo “Ser Mãe”, aqui neste mesmo cantinho, e questionei Deus, ontem, por não obrigar todas as mães a serem aquilo. Mas Deus me respondeu imediatamente que não obriga ninguém a nada, e que eu aproveitasse e fizesse uma oração por esta criança de 3 anos cujo corpinho foi boiando pelas águas, até ser encontrado ainda vestindo seu pijaminha, no ribeirão Preto.

Agora já tenho menos de um metro e estou nadando nas dolorosas águas do ribeirão de minha infância, que moldou este estranhíssimo filho que sou. Deixo meu corpo à deriva, e a correnteza me leva a uma mãe, que pede ao menino que dê um telefonema anônimo à suposta amante do pai, esculhambando e dizendo ter certeza do caso que, hoje sei, jamais existiu. Era uma criança, e fazia aquilo sem entender, mas supondo que um dia seria adulto e entenderia. A secretária queria casar e ter filhos, e meu pai, anos depois, me confessou, “de homem para homem”, que tentou, sim, pegá-la, mas ela era direita. Náufragos do desejo!

Flutuando, vou chacoalhado no banzeiro das chuvas, quando esbarro na mãe alcoólatra, recebendo as amigas do Lions para uma peixada: encosta-se chorando na porta da cozinha que dava para a sala, avental sujo e robe de dormir, enquanto as mulheres diziam: que é isso, deixa de bobagens, está tudo bem... Ela repetia que o peixe estava estragado e não haveria o que servir. E todos constrangidos, porque naquele estado em que ela se encontrava tudo era possível. E, como um dia o menino cresceria, um dia entenderia a cena. Aquelas mulheres mergulham nas minhas águas, se despedindo da desolada bêbada, e não consigo mais ouvir os comentários.

Risos nervosos de uma criança na superfície, que escuta o relato de que o pai a acusava de tê-la pego já mulher desvirginada. Ela rebatia me contando que tinha sido o dedo dele, na viela que levava até a vila de casas onde morava. E eu pairava sobre aqueles personagens mal-resolvidos, pedindo a Deus que conseguisse suportar a loucura, nos 19 anos que passaria ali. A sanidade era o fio da navalha.

Educação e afeto eram arame farpado, em campo de concentração (para fugir, só se cortando); condução rumo ao redemoinho, a inserção em papeis desprezíveis, mesquinhos e egoístas. Há mães e mães. Mas a falta do colo delas é uma só — oceânico buraco diante de um horizonte belo, onde tempestades lancinantes se formam em átimo de segundo. Eu estudaria e um dia partiria daquele lugar, onde nasceu o sonho de ser outro filho. Vesti meu pijaminha e vim flutuando até aqui, meu particular ribeirão Preto.

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