Moacyr Luz: Leis e vizinhos

'Seria bom se ‘Arrastão’ fosse apenas um clássico no repertório da Elis Regina'

Por O Dia

Rio - O vizinho deve ter surgido com a invenção do prédio de apartamentos. Quando eram ocas ou pirâmides, cada um convivia com o seu próprio eco em eras terciárias. Na fantasia de voz grave, Fred Flintstone parava seu carro de pedra sem fixar qualquer autorização no para-brisa, gritando Vilma, feliz da vida. Aos pares, vizinhos de naipe organizavam suas canastras, sujas ou limpas, quando, na evolução da espécie, nasce o síndico. E aí foi tudo pro “beleléu”. Síndico pode ser sinônimo de inspetor, fiscal, prefeito, pior, prefeitinho, um Procure Saber em proibições.

O prazer em dar ordem é a contrapartida da alegria alheia. Cantar um samba depois das dez não pode. Subir o elevador social com um tantã, também não pode.

Praticamente um contágio em filmes de ação, o “mandão” se alastra pelos bares, vetando os sem-camisa e os instrumentos sonoros. Cria leis absurdas, como a extinção do limão da casa e o frango assado em Ipanema. São ordens em formato suástico, quase um labirinto de intolerâncias.

Das notícias recentes, além de biografias, li que é proibido levantar pra comemorar gol no novo Maracanã e tomei conhecimento que a feijoada com samba aos domingos no Botero, dentro do Mercado de Artes São José, também está proibida.
Outro samba, na feira da Glória, foi riscado do mapa.

Altinho na praia, já ouviu falar? Nem precisa, vetado junto a frescobol e peteca. Há tolerância à prática quando jogado na área escaldante da areia. No caso, aconselho um Hipogloss em balde pra tratar das bolhas na sola dos pés.

Sou a favor da Ordem Pública, mas alguns episódios encostam na loucura legislativa. Soube que um vereador mineiro propôs uma lei de mão e contramão aos pedestres. Outro político, paulista, apresentou um projeto em que o cidadão seria obrigado a uma exposição diária de 15 minutos ao sol, bom pra absorção da Vitamina D. “Eu gosto é de mandar”, diria Zé Trindade, que preferia as mulheres.

Existem exceções carinhosas. No Bip Bip, em Copacabana, é proibido grandes aplausos. Justifica-se: todos os músicos da roda de samba estão fartos de reverências. Os dedos estalados pelos presentes bastam. Na Adega Flor de Coimbra, na Lapa, é proibido beijos ousados. Como o bairro é a versão carioca de Sodoma e Gomorra, deve se tratar de trote aos tímidos suecos.

Entre leis e consensos, seria bom se “Arrastão” fosse apenas um clássico no repertório da Elis Regina. Aí, sim. Obrigatório!

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