Por nara.boechat

Rio - Um dos maiores problemas do mundo é o da interpretação. Interpretação errada. Muitas vezes, pergunto: “Você não teve aula de interpretação de texto?”. Eu tive, com a inesquecível professora de Português Ana Castro, que tinha fama de má, mas era ótima, não dava mole para ninguém, por isso era considerada carrasca, embora fosse apenas exigente. Exigia que os alunos aprendessem. Exigir, um verbo que jamais deveria ser ignorado pelos educadores. O professor está lá para ensinar, e não para dar um jeitinho de você passar de ano. Esse que faz isso, sim, é carrasco, um tirano.

Entender certo vai além de ler as palavras. Basta você se concentrar. É simples: prestar atenção. Muitas vezes a gente ouve sem ouvir o que aquilo quer dizer. Nos estudos, quer apenas decorar, por isso as provas costumam ter ‘pegadinhas’. “Te peguei sem prestar atenção, hein?”. É só parar de brincadeira, de postura de fachada, e simplesmente dedicar 10 segundos, ou minutos, do seu tempo. Escutar e absorver a questão que se coloca à sua frente.

Deturpar a realidade vem da interpretação errada. Alguém vê uma situação completamente diferente de você. Uma situação prática pode ser subjetiva? Ou é matemática? Pode ser um ou outro? Um fato é um fato? Difícil equação, pois cada um tem a sua verdade, a sua visão. E isso é o que torna um dos enfoques sempre mais injusto sob o outro olhar.

Somos capazes de interpretar um fato, quando se é errado, por exemplo, falar “fatos reais”, pois se são fatos, são reais. Então não deveria haver dois ângulos de uma só verdade. Um fato não pode ser questão de ponto de vista, de interpretação. Não pode vir com legenda, precisar de bula. Um simples acontecimento é o que é.

Esse incômodo da interpretação voltou a me atingir depois de assistir ao filme ‘Blue Jasmine’, através da personagem de Cate Blanchett, tão rica em detalhes psicologicamente, tão profunda quanto destrutiva. A protagonista da obra-prima de Woody Allen (o diretor volta à sua melhor forma) nos mostra o quanto alguém pode ter uma realidade particular, que o leva ao sucesso ou à ruína, dependendo da própria interpretação. Um outro ponto é o quanto as decisões pessoais são baseadas na emoção e não na razão. Ou seja, por mais que tentemos racionalizar, por mais que sejamos cultos e embasados, na hora H o instinto é o determinante. Não se para para interpretar, ponderar, ser racional. E assim as grandes tragédias pessoais acontecem, com as decisões sendo tomadas no calor do momento.

Difícil seguir uma cartilha em se tratando de vida.

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