Por bferreira
Rio - Outro dia um amigo me emprestou o filme ‘Os sete samurais’, do cinea</IP>sta Akira Kurosawa, que conta uma história passada no Japão. Habitantes muito pobres de uma aldeia pedem socorro a guerreiros samurais para se livrar da opressão de bandos de criminosos. Imediatamente, pensei no drama das favelas do Rio. Depois de décadas submetidas à criminalidade e abandonadas pelo poder público, as comunidades pobres da cidade começam, uma por uma, a receber os modernos samurais, batizados de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).
Hoje como política pública, a mídia, a sociedade e a Secretaria de Segurança veem nisso um grande avanço do governo do estado. Mas é preciso deixar claro que estamos apenas no começo da mudança de uma triste realidade e, sejamos justos, as próprias autoridades reconhecem isso.
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As forças policiais são apenas a parte visível de um processo que, sem os necessários desdobramentos, ou seja, a presença permanente do Estado (serviços públicos, sociais, infraestrutura etc.), corre o risco de não dar certo.
Parte da população que vive nessas comunidades sente uma nova esperança. Imagina, enfim, sair de vez da cidade partida. E espera, com ansiedade, que venha a segunda onda de boas notícias. É fundamental para todos nós poupar essa gente — centenas de milhares de pessoas — de mais uma decepção. E seu maior anseio, seguramente, é a presença da Justiça. Não se pode querer calar a voz dessas comunidades, nem sua vivência cultural. Basta percorrê-las para constatar como os moradores sonham com a presença permanente do Judiciário, do Ministério Público, da Defensoria Pública — capazes não apenas de proteger os cidadãos com a lei, mas também de resolver os conflitos entre eles próprios.
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Sonham com o dia em que não será mais o traficante, o policial convertido em miliciano ou qualquer tipo de pessoa que imporão sua lei, e sim que seja aplicada a lei que serve a todos os que vivem em sociedade. A que nivela, que contém os excessos, que protege e que também pune, mas sob regras claras e nunca através da vontade do ‘dono do morro’. Ou do policial que ocupa aquela comunidade.
Definitivamente, não se pode esperar da polícia um papel que não é seu, por melhor que seja a intenção de seus integrantes. E essa decisão do poder público deve ser urgente, antes que o risco de desvios provoque novo retrocesso.
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Coordenador do Movimento Popular de Favelas e membro do Conselho Estadual de Diretos Humanos
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