Por bferreira
Rio - Desde o primeiro arrastão ocorrido em praia carioca, isto há uns 20 anos, que o balanço dos casos revela um paradoxo. O volume de objetos roubados não é nem de longe compatível com a confusão e o pânico revelados pelos vídeos e fotos. Na TV, vemos uma espécie de corrida rumo ao apocalipse, centenas de milhares de pessoas apavoradas, buscando algum refúgio. Imagens mais fechadas mostram a movimentação de jovens magrelos, prováveis responsáveis pelo caos. Na maior parte das vezes, eles não aparecem furtando, mas exercitando uma violência mais voltada para a geração daquele tumulto. Parecem interessados em brincar de brigar, algo suficiente para deixar todo mundo apavorado.
Não é que não ocorram crimes, há furtos, roubos e agressões, mas a lista de delitos costuma, no fim das contas, ser bem pequena. Daí, arrisco dizer que os arrastões são, principalmente, uma espécie estranha e violenta de lazer praiano que tem como objetivo principal botar os outros para correr. Os ‘outros’ são os que se julgam donos da praia, que moram ali por perto, ou dizem que moram. São aqueles ali de pele mais branca e cabelos mais lisos, os que lamentam os ônibus que, no Posto 6, despejam suburbanos pretos ou quase pretos. São eles, os mesmos que alardeiam os valores de seu IPTU nas redes sociais; filhos ou netos dos que, há quase 30 anos, não tiveram vergonha de reivindicar que ônibus vindos do subúrbio pelo Rebouças não circulassem nos domingos e feriados. Como não podem evitar a presença dos visitantes indesejáveis, fazem o possível para deixá-los desconfortáveis, procuram tornar ainda mais evidente o abismo social que os separa daquela gente diferenciada.
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Levantam o nariz, viram a cara e fingem que não veem ou ouvem os que chegam do além-túnel.
Contra a humilhação imposta pela invisibilidade forçada vale aumentar o volume do funk nos carros, exagerar nos passos ensaiados na areia, andar em grupo, assumir a postura de que o espaço hostil está dominado. Aqueles jovens gritam para ser ouvidos e vistos. Em dias mais quentes, a diversão pode ser outra, uma vingança que se manifesta em botar pra correr os que gostariam de vê-los longe dali. Não é difícil, as vítimas têm celulares caros, carteiras, filhos pequenos; têm, principalmente, medo daqueles que tentam não ver. De vez em quando, acabam sendo obrigados a ouvi-los, a enxergá-los, e a correr deles.
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Fernando Molica é jornalista e escritor | E-mail: [email protected]
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