Por bferreira

Rio - Aos 81 anos, idade a que cheguei inexplicavelmente, acho espantoso que Mandela, depois de tudo que passou, tenha chegado a incríveis 95 anos. Acabou sendo presidente do país símbolo máximo da segregação racial. E Obama é presidente dos Estados Unidos, não menos racista. Só acredito na erradicação definitiva do racismo quando o Brasil tiver um presidente negro. Acho mais fácil isso acontecer na Alemanha ou na Finlândia. Fausi Arap morreu no mesmo dia, 20 anos mais novo.

Eu diria que 75 anos é uma boa idade para se morrer, houve tempo de sobra para fazer seja lá o que for. Se não fez foi porque não foi capaz, ou porque não estava a fim de fazer. Se alguém me garantisse que eu iria viver tanto quanto o Mandela, ou seja, mais 14 anos, entraria em pânico. Proibido pelos médicos e pela Célia de beber (que é muito melhor que viver), a única coisa que me restaria seria assistir futebol pela tevê. E quantos jogos melhores verei que o da semifinal da Copa de 1970, entre Alemanha e Itália? A Alemanha de Beckenbauer (que terminou o jogo com a clavícula fraturada) jogou melhor e teve a seu favor um pênalti que o juiz mexicano vergonhosamente não marcou.

A Itália acabou ganhando no finzinho da prorrogação. Essa batalha memorável foi travada no estádio Azteca, no México, diante de mais de cem mil espectadores. Mas na final da Copa, esbagaçada, a Itália levou de 4 a 1 do Brasil na final e ganhamos o tri. Por falar em tropeço, confesso que errei feio na charge de quinta: escrevi rankink em vez de ranking, e Gighia em vez de Ghiggia (troquei a amnésia alcoólica pela abstêmica). Mereço cair pelo menos umas 20 posições no ranking, seja lá qual for. Millôr tinha uma fórmula infalível para desconcertar as pessoas. Costumava perguntar: “Você vai morrer de quê?”. No meu caso, posso morrer de cirrose, de infarto, de AVC, de deficiência respiratória, de tombo no banheiro ou atropelado por um ciclista na calçada.

Agora a pauta é biografia, autorizada ou não. Detesto quando alguém me cobra um livro de memórias. Em primeiro lugar não tenho a menor vontade; se a mim não interessa, a quem interessaria? Mas mesmo que quisesse é algo fora do meu alcance. Quando trabalhava no Pasquim entrevistei Pedro Nava, notável memorialista. Fiquei pasmo quando ele disse que foi meu pediatra quando eu tinha 5 anos. E feliz ao saber que Ferreira Gullar — como eu — não se lembra de quase nada do seu tempo de criança. Desconfio que todos os livros de memória são pura ficção.

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