Por bferreira

Rio - De repente o teto da maravilhosa Tenda do Saber voou, abrindo buracos que revelavam a noite e o começo de grossos pingos de chuva. Eu disse “Eparrei, Yansã!”, e ao meu lado a divina mestra Rosa Magalhães sacou um cigarro e, sem titubear, baforou fumaça para o alto e disse: é bom que dá pra fumar. Era o fim de um animadíssimo debate sobre o Carnaval, no projeto Trem do Samba, que fazíamos com o querido Marquinhos de (e em) Oswaldo Cruz. A plateia generosa aplaudiu, e todos correram para casa.

Quinta feira, 19h30. Era o começo do saracoteio que inundaria o Rio. Das cadeiras vazias, pulou um homem, que me disse: “Oi, Milton, sou policial civil e, sempre que o bicho tá pegando no meu grupamento, eu digo que vou dar uma de Milton Cunha, bato palmas e falo igual a você: “Meus amores, vamos agitar que cobra que não anda não engole sapo. Saravá!”. Fui tentando sair. Ele suplicou: “Pelo amor de Deus, prometi à minha mulher que te a-do-ra que eu te levaria no nosso bar para dar um abraço nela”. O que fiz? Parti na chuva, rumo ao inacreditável Point 300, e, enquanto caminhava, a ventania ia tremendo e derrubando as barraquinhas no caminho. Cheguei um pouco molhado mas feliz na cozinha da mulher do cara, abracei-a e fui ao avarandado beber uma. Enquanto bebia a décima, o toldo de circo que o policial-barzeiro tinha colocado na porta do grande bar para o pagode comer solto, lutava bravamente contra a tempestade, até que rasgou e caiu. Nisto, o rapaz correu para segurar o que sobrou, e todos os homens da varanda arrancaram suas camisas e partiram para ajudá-lo.

Não sabia se aplaudia ou gritava, mas estava no show dos Leopardos suburbanos, os mais sedutores homens da Terra, iluminados pela luz dos trovões, molhados em suas bermudas e tênis. Achava que o diretor Jorge Fernando gritaria “corta”, e só quem frequenta do túnel pra lá sabe do que estou falando. Espetáculo, e lá pelas duas da manhã cheguei a Copacabana. A vida é assim mesmo. Adorei tudo.

Sábado, fui à Central porque, pela primeira vez, iria embarcar num trem daqueles, me sentindo a Zaquia Jorge, aquela vedete principal, do Subúrbio da Central, que foi a pioneira. Levado por Ana Muller embarquei no primeiro vagão do primeiro trem, chique, muito chique. Dei de cara com a velha guarda da Portela, peguei o microfone, e bradei: “Atenção, presidente, quero informar que eu estou pegando a Tia Surica; fiquem todos sabendo que eu estou ficando com a Suriquete”. Ela levantou, acenou sorridente para a multidão delirante, o trem apitou e partiu para o salve-se quem puder que esta festa é. Vocês não sabem o que estão perdendo!

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