Por bferreira

Rio - Entendo o sufoco de quem dirige táxi. Não é fácil rodar numa cidade engarrafada, que se transforma em Veneza dos trópicos quando chove mais forte. Quem paga diária ainda sofre para conseguir levar alguma grana para casa. Mas passageiros também penam. Além do pecado mortal da cobrança fora do taxímetro, no tiro, são vítimas de uma série de outras situações. É chato quando o taxista pergunta pelo destino antes de o cliente embarcar. Táxi é serviço público, não cabe ao concessionário definir a corrida. Quando isso ocorre, costumo não responder, busco outro carro. Uma vez, irritado, expliquei que não buscava uma carona, que pagaria pelo serviço, logo, tinha o direito de escolher para onde ir.

O assédio também é irritante. Em locais de muito movimento — aeroportos, shoppings, casas de shows — é comum ouvirmos os insistentes gritos de táxi!, táxi!, táxi! Algumas vezes, apelei para a ironia, ressaltei que cabe ao passageiro chamar o táxi, não ao táxi chamar o passageiro. Há também os motoristas DJs e MCs. E tome pancadão, dance, pagode e gospels durante a viagem. Nesses casos, simulo uma conversa ao telefone para justificar o pedido de diminuição do volume do som. E os taxistas que gostam de acompanhar novelas e ver filmes ou musicais enquanto dirigem? A legislação diz que monitores de TV só podem ser colocados na parte dianteira do veículo caso tenham mecanismo que os tornem inoperantes quando o carro estiver em movimento. Quase ninguém respeita isso, o que aumenta a possibilidade de acidentes e eleva a impaciência do passageiro. O mesmo abuso, cometem taxistas que falam ao celular enquanto dirigem. O passageiro, locatário daquele veículo durante a corrida, que se conforme em ouvir relatos de problemas financeiros ou de brigas conjugais.

Tantas mazelas se apoiam na falta de punição e de um transporte público decente. Como em qualquer campo, serviços tendem a melhorar quando expostos à concorrência. A prefeitura, por exemplo, poderia imitar outras cidades no transporte para o aeroporto. Bastaria aproveitar os futuros BRTs e criar ônibus para o Galeão que teriam espaço para bagagem na própria cabine de passageiros. Uns veículos iriam para Jacarepaguá e Barra pela Transcarioca; outros — bastaria construir uma alça que ligasse as duas vias expressas — pegariam a Transbrasil assim que deixassem a Ilha do Fundão e seguiriam para o Centro e a Zona Oeste. Já seria um avanço.

Fernando Molica é jornalista e escritor.
E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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