Por bferreira
Rio - O Brasil padece de proatividade: são inúmeros os exemplos, muitos discutidos neste espaço, que se encaixam na máxima do ‘leite derramado’ — quando se chora e se age tardiamente. Há três anos e meio, o Morro do Bumba, em Niterói, veio abaixo. A tragédia, que ceifou 267 vidas, escancarou anos de negligência e série de decisões irresponsáveis. Esperava-se que, depois da terra arrasada, o poder público tomasse tenência. Reportagem no DIA de ontem, no entanto, levanta sérias dúvidas sobre o aprendizado pós-desgraça. Rachaduras nos prédios erguidos para acomodar os sobreviventes do desmantelamento do morro são a face mais visível de um abandono reincidente.
Os erros se sucedem: dois prédios de um dos blocos em construção tiveram de ser demolidos por falhas no projeto. E a deterioração acelerada dos edifícios já de pé deixa os moradores em constante apreensão — como se não bastasse o trauma de ver a lama e a terra carregando casas e vidas morro abaixo. Uma encosta instável a poucos metros de um dos conjuntos reforça o pavor.
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Igualmente grave é o ‘novo Bumba’ continuar a ser assombrado por uma velha mazela: o tráfico. Marcas de tiro são o recado velado da política de medo, que repete a cartilha da dominação de território, com ligações clandestinas de energia e de televisão a cabo. Tiroteios não são raros.
Tudo isto posto, é justo perguntar o que de tão mal fizeram os moradores do Bumba para justificar tamanha privação. Um antigo lixão jamais poderia ser base para moradias, regulares ou não. Ocuparam-se as encostas, mas nada foi feito. Veio uma chuva mais forte, e os mortos se contaram às dezenas. Ainda que, hoje, os remanescentes não corram o mesmo risco, é prudente garantir a esses cidadãos uma vida digna e sem sobressaltos. Nunca é tarde para aprender e adotar uma postura mais proativa, que se antecipa aos fatos e sempre tem uma solução para qualquer tipo de problema.
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