Por bferreira
Rio - Numa suposta matriz carioca, um GoogleBar no mouse de setas e bússolas pelas biroscas da cidade, alcançar o galeto do Sat’s, em Copacabana, exige um ícone de lucidez. Explico. Após o túnel que desemboca na primeira visão da praia famosa, você engrena a marcha numa curva sinuosa à direita, e a Barata Ribeiro se traduz num susto. De cara, o Cervantes e o galeto, que só fecham pra enxaguar o piso.
Sérgio, o atual dono, morou longos anos na outra calçada. Quase uma vida a pé assistindo ao trânsito frear na beira das pernas. Espantos de um pré­atropelado, conseguiu sobreviver ileso às cambaleantes voltas ao lar. Vermelho, sem ser do sol, me conta: Moa, conversei com o meu anjo da guarda. Estou vivo depois de mil travessias nesse globo da morte! Merecia uma atitude. Comprei o Sat’s. Só pode ser destino! Ah! Da minha residência, só restou o CEP. Também mudei pro mesmo “par”. Agora, o caminho de casa é tateando nos prédios da vizinhança.
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Belo bar. Além do imbatível espeto­colesterol de coração de galinha, cristaleiras com cem rótulos de cachaça adornam em lambris a nova decoração. Sem modismo, um autêntico bar carioca.
Lembrei de Alexandre, botafoguense e diário nas mesas do Adônis. Exagerado, mantém seu próprio freezer no salão do bar. Dentro, mantas de carneiros, cabeças de bacalhau ou javalis de Guapimirim. Em dias inspirados, cadeado aberto e o cardápio está resolvido, mesmo que em nada se assemelhe ao prato do dia. É quando ficção e realidade se confundem. Você dorme pinguço e acorda “português” do botequim, o dono da tendinha.
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Força de expressão, o pé na jaca na arruda da orelha. Algo assim. No Cachambi, bairro da Rua Honório, móveis de madeira, qualquer passo apertado e a lupa já classifica como Todos os Santos, um satélite da região.
Redondeza familiar, uma névoa de churrasco identifica a fachada do Cachambeer, o bar preferido do prefeito. A tal fumaça nasce no vapor das gigantes costelas de boi assadas nos contêineres da calçada. A ordem é jamais economizar no tamanho, nem na gordura. Na gerência, Marcelo, nascido cliente da casa até um decisivo porre de saideira: Eu queria beber mais, o portuga não deixou. Comprei, como se diz, com as portas fechadas pra ninguém precisar sair da mesa. É a vida!
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Mauro Diniz conta que, numa madrugada em Madureira, o gênio Nelson Cavaquinho, sentado com amigos, pede mais uma, prontamente negada pelo dono — já estamos a “fechaire”. O autor de ‘Folhas Secas’, voz rouca, apela em última instância: Faz um preço na mesa e as cadeiras, inclui um conhaque e pode ir embora!
Isso é Rio de Janeiro.
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