Por tamyres.matos

Rio - Minha faxineira pede-me para matricular a filha no Ensino Médio pela Internet. No papel amarrotado que me entrega, leio o site de um serviço chamado ‘Matrícula Fácil’. Parto para o preenchimento: nome do pai, nome da mãe, CPF do responsável... “Janete, cadê o seu CPF?” “Não trouxe não, Seu Chico!” “Janete, Janete, como você não trouxe o CPF?! Não sabe que, para fazer qualquer coisa, é preciso o CPF?”

Dia seguinte, CPF resolvido, a dificuldade passa ao endereço. Rua A, sem número, bairro... “Município? Sei não.” “Mas, Janete, você não sabe o município? Em que cidade você mora?” “Município é cidade, Seu Chico? Então, sei sim: Itaboraí.”

Tentar descobrir o CEP levou-me a algumas lições sobre miséria. Aprendi que, de tão isolados e problemáticos, em alguns lugares até mesmo as contas das concessionárias são deixadas em igrejas ou mercearias, e não nas casas dos destinatários.

Continuo no formulário: nome do aluno, data de nascimento... “Janete, cadê a certidão de nascimento da menina?” “Tenho não?” “Você não tem a certidão de nascimento?” “Bom, tem um papel lá em casa que a gente tiramos quando ela nasceu...” Alguns minutos depois, com a filha ao telefone: “Está escrito o que em cima?” “Cartório da comarca...” “Isso, isso, veja se não tem a palavra ‘livro’ escrita em algum lugar?” “Livro? Livro?... Tem sim.” “Livro o quê?” “DD-3.” “Ótimo... Tem as folhas?” “Tem não.” “Tem o que depois de livro?” Tem F-L-S.” “É isso, FLS o quê?”

Dias depois, ela me pede para mudar uma opção, pois descobrira que a escola escolhida ficava em região de alta criminalidade. Foi então a minha vez de sofrer: simplesmente, o programa de computador não funcionava a contento.

Inevitável lembrar de Hugo Chávez. Ao constatar que 2 milhões de crianças não frequentavam a escola por falta de documentos, o líder venezuelano simplesmente decretou: “Amanhã todas as crianças irão às escolas, com ou sem documentos”. Chávez compreendia que a garantia do exercício pleno da cidadania não cai do céu, demanda entendimento das causas e decisões nada ortodoxas.

Não vou aqui apenas criticar o Matrícula Fácil, que, sem dúvida, tem seus méritos. Não é difícil constatar que, em muitos aspectos, o programa faz jus ao nome, no mínimo por evitar que a mãe tenha de passar a madrugada ao relento em alguma fila de escola. Porém, peca ao considerar que seu usuário sabe ler, escrever e toma café da manhã todos os dias. Coitado de quem não pertence a esse clube!

Francisco José Ferraro Genu é auditor fiscal

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