Por tamyres.matos

Rio - Há poucos dias, num shopping da Zona Sul do Rio, aconteceria mais uma tradicional foto com Papai Noel. Quando chegou o grande momento, porém, a pequena Lara conteve o abraço do Bom Velhinho, o encarou docemente e lançou: “Papai Noel, onde você mora?”.

A mãe ficou paralisada: o senhorzinho precisava dar a ‘resposta correta’ para manter a história do Noel viva àquela criança. Ele não hesitou e falou a verdade: “Em Queimados, minha filha! Na Baixada Fluminense, aqui no Rio mesmo!” “Ué?!? Não era no Polo Norte, um lugar cheio de neve e beeem longe daqui?”

Não dizem que em um grão de areia cabe todo o mundo? Então... a verdade daquele ‘representante de Papai Noel’ foi um perfeito cisco no olho!

Por falar ‘representante de Papai Noel’, adotei o termo quando o meu filho Henrique, no auge dos seus 5 anos, percebeu, entre idas e vindas, as diferenças físicas entre os Noéis e questionou como poderia ser um só e estar, ao mesmo tempo, em diferentes lugares. Não titubeei: “Eles são representantes oficiais de Papai Noel! Fazem curso e tudo! São parte de um Sistema de Cooperativas, do qual pais também participam! Todos trabalham para manter essa linda história viva!”

Até os 6 anos, ele seguiu sem questionar. Dali pra frente, no entanto, mesmo sem o meu desmentido, encarou com força o desvendar de uma nova verdade. Desde então, conforme os Natais se aproximam, ele avisa a quem lhe insistir na crença: “Eu já sei que é tudo mentira! Papai Noel não existe!” Cismou, mas mantive a versão do Sistema de Cooperativas. Ao mesmo tempo em que se autoafirma com a postura de ‘ninguém me engana’, o brilho no seu olhar diz: “Ainda gosto da possibilidade de acreditar em algo tão mágico”! Certo ele! Do que valeria olhar sem ver?!

As verdades e os questionamentos sobre Noel são diversos, mas a essência da bondade do personagem é uma só. Fora ela, a fantasia se mistura, inevitavelmente, com a realidade. Essa não é uma história que fique apenas no imaginário infantil, como princesas e bonequinhos coloridos cantantes. Noel interage com nossas vidas: leva chupetas, recebe cartinhas, leite com cookies, sapatinhos na janela, ouve pedidos, posa para fotos, deixa presentes, nos espera nos shoppings e festas, aparece em comerciais de TV e, neste ano, até falou sobre Aquecimento Global na campanha do Green Peace.

A psicanalista austríaca Melanie Klein apostava na prevalência da realidade em qualquer circunstância e experimentou negar a fantasia aos seus filhos. Certo dia, porém, intrigou-se com um pedido dos filhos: queriam se mudar para a casa da vizinha. Por que? Lá existia Papai Noel! Uma verdade e tanto, não?

Simone Ronzani é jornalista e autora do Recontando.com

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