Por thiago.antunes

Rio - Desde a semana passada que o amigo Luiz Antonio Simas, professor de História e escritor, lembra no Facebook canções natalinas brasileiras. Desencavou uma de Chico Buarque (‘Tão bom que foi o Natal’), revelou a gravação de Clementina de Jesus para ‘Vinde, vinde companheiros’, tema de pastoris nordestinos, destacou ‘Papai Noel de camiseta’, de Celso Viáfora (“Estenderá uma toalha na sarjeta/Em qualquer praça de subúrbio do país”). São bonitas, emocionantes, mas, entre todas, fico com ‘Boas festas’, de Assis Valente, a mais bela e triste, a primeira música de protesto que ouvi.

Eu era criança quando me dei conta da melancolia de seus versos, do “Já faz tempo que pedi/Mas o meu Papai Noel não vem”. A música, caramba, falava de alguém que não recebia presente de Natal. Mais, tratava de morte, na eventualidade de o Velhinho já ter batido as botas. Logo depos, porém, o narrador ressalta a possibilidade de Papai Noel — Felicidade! — continuar vivo: “É brinquedo que não tem”, conclui. Generoso, ele se conforma pela ausência do presente, é como se o tivesse trocado pela vida do Papai Noel. É chato e triste ficar sem o brinquedo, mas foi por uma boa causa. Exposto a um dilema, o menino se vê obrigado a ficar adulto, a racionalizar a ausência de seu presente. Crianças pobres são obrigadas a amadurecer mais cedo, têm infância mais curta, zelam até por Papai Noel.

Na música, sinos não tocam, não fazem blim-blom, não badalam. O sino geme, remete não à alegria, mas à dor de um Natal sem presente, de ceia acanhada; alerta para uma felicidade que é brincadeira de papel. Apesar de toda a tristeza e do título irônico, ‘Boas festas’ traduz melhor a data do que canções que tratam de um Natal idealizado, de Papai Noel que não se esquece de ninguém, que traz presentes até para o vovô e a vovó.

Assis Valente não nega a religiosidade da festa — na letra diz que a família do menino fica feliz a rezar —, mas frisa que o mundo é duro, injusto. Ele não mente, diz que naquele Natal, assim como nos outros, haverá crianças que ficarão sem presente. É possível até que Papai Noel não exista — se existisse, não seria assim tão cruel, não reproduziria a injustiça do dia a dia, que deixa tantos de fora de tantas comemorações. 

Mesmo melancólica, a música fala de esperança, traz um apelo que todos, de alguma forma, crianças ou adultos, renovamos a cada fim de ano, o pedido para que um papai noel qualquer nos dê a felicidade. Feliz Natal para todos.

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