Por tamyres.matos
Rio - Das minhas previsões pra 2014, perder 15 quilos e só beber em dias pares, a urgência me faz antecipar tais atitudes. Pedi ao Papai Noel um pouco de vergonha na cara e um cinto com mais furos depois da semana natalina. Às festas de praxe, inventam-se pretextos absurdos pro sujeito passar do ponto. Os tradicionais continuam aproveitando almoços da empresa pra se declarar à secretária. Tempos modernos: a executiva pisca pro estagiário, que já mandou torpedo pro boy recém-contratado.
No boteco, a manjada vaquinha arrecadou o necessário pro churrasco com samba. Aqui, onde você lê o ritmo, escute o advogado, vizinho do segundo andar, que completou três meses com aulas de cavaquinho, duelando com o surdo do Batori, aposentado, e a sua velha lata de 25 litros, amassada com o repertório. O líder dos ‘cachaça’ mostra a nota fiscal das carnes e pede “pelo amor de Deus, não me deixem esquecer o ‘teipuer’. Minha mulher me mata!” Um passante cotidiano, desses que cruzam o bar do outro lado da calçada, resolve confraternizar. Poucos sabem que numa rua próxima é famoso pela altura da voz quando bebe, um porranca legítimo.
Publicidade
Eufórico, se oferece pra anunciar o “Feliz Natal!” na rifa das 39 polegadas e aí, meu caro, a gritaria contamina. Muitas esposas aproveitam e abandonam os maridos nesta época. O sogro agradece. Não aguenta mais, todo ano, aquela sinceridade exagerada além das piadinhas de sempre: “O seu peru caseiro”, coisa e tal. Intragável. Na minha juventude, ainda vinho de garrafão, ou o impronunciável Liebraumilch seguido de tradução pra impressionar a noiva, o hábito da romaria aos lares de bons bolinhos de bacalhau e glicosadas rabanadas era obrigatório.
O bebum justificava: “Minha filha, se eu não for, quebra a corrente”, traçando a décima caneca no começo da tarde. Meu parceiro Aldir Blanc ajeitava as mãos num jeito de cantil de guerra, pra descer, já na garganta, um gelado Mateus Rosé, papa­fina espanhola. São histórias de uma época de correios e cartões, telegramas e flores na porta, distantes dos ‘tuítes’ e ‘faces’ imunes à emoção do dia.
Publicidade
Passa da meia-noite, garoa fina, volto da ceia familiar. Faço sinal pro táxi, alguém se antecipa, dedo acenando, mas o motorista reconhece a preferência. Todos sentados, ele, um solitário nessa noite sem renas, comenta: “Nem no Natal o sujeito é educado! Quis passar à sua frente! Nada disso! Há certo o que há de certo!” Agradecido e sem pensar no valor da corrida, respirei, aliviado: “Cesar é o cacete! É certo mesmo!” Toca pra Glória!