Por bferreira
Rio - Todos somos contra a corrupção e nos colocamos na frente para tacar pedras nos malfeitores. Esse ambiente de ‘justiçamento’ arraigou-se no ano que termina terça-feira, sobretudo por causa dos protestos de junho e julho. Pairou uma certeza de que o brasileiro enfim acordou e está pronto para empreender profundas mudanças. Assim se espera, pois 2014 é ano eleitoral e, com o pleito, surgem chances reais de sanear a política, historicamente terreno dos mais pantanosos. Mas é preciso entender a real dimensão do desejo de transformação, porque ainda grassam idiossincrasias que estão em total descompasso com toda essa ‘tendência revolucionária’ tão trombeteada ultimamente.
Apresentam-se dois exemplos corriqueiros dessa desarmonia. Um se verifica nas estradas. É comum motoristas que se julgam mais espertos avançarem pelo acostamento. Acreditam, assim, chegar na frente dos demais. O hábito traduz com perfeição a mecânica da corrupção: desvios do que é estabelecido para benefício próprio, em detrimento do outro, que prejudicam a todos, inclusive o corruptor. No caso do tráfego pelo acostamento, o apressado fatalmente terá de passar à pista quando deparar com uma ponte ou uma agulha, atravancando ainda mais o pesado tráfego. É a vantagem aparente.
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Outro caso de delito cotidiano é a pichação do patrimônio público. Não se sabe, por exemplo, o nível de insanidade ou desequilíbrio do casal que emporcalhou estátuas como a de Drummond. Ignora-se também o que os dois pensaram em ganhar com tais ações, mas o prejuízo é da cidade e dos cidadãos, incluindo os visitantes — pois o dinheiro e o tempo gastos na recuperação do mobiliário vandalizado poderiam ser mais bem utilizados.
A corrupção é mal mesquinho, egoísta, soberbo. É a prática do desprezar a coletividade e do pensar no individual, achando que o outro é sempre pior ou imerecedor. Mentalidade que deve ser extirpada se o Brasil quiser mudanças.