Editorial: Mais uma afronta no vácuo do Estado

A cobrança de ‘pedágio’, pelo tráfico, para despejo ilegal de sujeira às margens da Baía de Guanabara é mais uma afronta do poder paralelo

Por O Dia

Rio - A cobrança de ‘pedágio’, pelo tráfico, para despejo ilegal de sujeira às margens da Baía de Guanabara é mais uma afronta do poder paralelo ao Estado. E evidencia face inédita do vácuo de cidadania e da lei nas comunidades dominadas pelo crime. Mais: escancara o abandono a que moradores da Baixada estão condenados. Justiça seja feita, autoridades reagiram nesta segunda-feira, depois que a denúncia foi publicada pelo DIA. Vistoriaram caminhões e prometem inspeções rigorosas para acabar com os lixões ‘operados’ por bandidos. Será preciso empreender ação complexa e conjunta para pôr fim a esse absurdo.

A reação precisa ser urgente, e a questão ambiental tem um grande peso nessa equação. O Aterro Sanitário de Jardim Gramacho foi lacrado, há quase dois anos, nos estertores de sua operação. O risco de uma contaminação gigantesca da Baía — cujas águas estão muito longe do mínimo de balneabilidade — era iminente. Fechar um lixão que, por décadas, foi o principal vazadouro da Região Metropolitana era tarefa das mais complexas; vide o destino dos milhares de catadores, apenas um dos desafios da transferência. Mas ver o tráfico extorquir de caminhões para permitir o despejo indiscriminado dá a entender que a área está completamente abandonada, como se fosse terra de ninguém. Existirem terrenos baldios numa região tão degradada é uma temeridade. Saber que tem gente ganhando com isso é um despautério.

E há, evidentemente, o fator humano. Nesse ponto, os moradores da Baixada se assemelham aos da Mangueira, cujo comércio foi obrigado a cerrar as portas ontem. Também incomoda ver bandidos animados com perspectivas de lucro na Copa, como mostrou a TV inglesa. São afrontas que aterrorizam a população e põem as forças de segurança em xeque. É válido lembrar sempre o avanço das UPPs e o tremendo ganho social advindo da pacificação. Mas não dá para permitir ousadias como o pedágio para lixões e luto forçado em favelas — episódios tristes que desafiam o processo em construção de bem-estar social.

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