Fillipi Lúcio Nascimento da Silva: Ponto de intersecção

É noite de sábado na Lapa. A chuva que cai quase incessante parece ter esfriado o caloroso bairro carioca

Por O Dia

Rio - É noite de sábado na Lapa. A chuva que cai quase incessante parece ter esfriado o caloroso bairro carioca. As mesas montáveis que normalmente se veem postas nas calçadas, agora recolhidas, dividem o espaço interior dos bares com as poucas pessoas que neles estão. As luzes coloridas que iluminam o bairro, vistas desde a fachada da Catedral Metropolitana às luminárias das pequenas barracas de bebida, aparecem enturvadas por uma leve neblina.

Os sons, sempre em mix de samba, pagode, funk e rock, notam-se abafados pelo uníssono da chuva. Poucos veículos trafegam pelas avenidas; também não se veem policiais; há pouca gente na rua, são onze e meia da noite.

Um rapaz segue apressadamente pela Mem de Sá em direção aos Arcos. Seu semblante mostra arrependimento por não ter trazido consigo um guarda-chuva. A garoa que havia caído algumas horas atrás em nada o sugerira sobre os relâmpagos, os trovões e a imensa quantidade de água que desabavam sobre ele naquele momento. Em passadas cada vez mais largas, o jovem mostrava preocupação em querer chegar em casa. Não havia planejado sair tão tarde da festa. Seguindo com objetivo, não percebeu o movimento que próximo se passava.

A alguns metros dali, nos fundos da Fundição Progresso, cracudos se aglomeravam em fuga da forte chuva que caía. Alguns dormiam sobre a calçada molhada, outros, em abstinência, deliravam em gritos e murmúrios. Entre esses últimos, um adolescente em seus 16 anos jazia em agonia. Sentia fortemente o clamor de seu estômago, que há muito não reconhecia alimento. Estava tonto. Seus olhos ardiam. A água da chuva não era suficiente para saciar sua boca seca.

Em meio a todo sofrimento não conseguia pensar outra coisa senão em fumar mais uma pedra de crack... Mas onde conseguir? Sabia que próximo dali, numa certa escadaria colorida, poderia encontrar alguém, algum traficante que negociaria com ele. Mas então como conseguir? Não tinha dinheiro; mas para ele isso nunca foi problema, já havia cometido alguns furtos e, com o que havia conseguido da venda de seus espólios, mantinha o vício. Mas não havia nada para furtar, muito menos a quem vender.

Em seus devaneios, mal percebera que caminhara até a entrada do Circo Voador, onde permanecera extasiado até observar o ligeiro caminhar de um jovem que sozinho passava ao longe. Agora, sabia o que fazer... Tinha que fazer.

(Continua sexta que vem).

Fillipi Lúcio Nascimento da Silva é pesquisador da UFRJ e da UFAL

Últimas de _legado_Opinião