Moacyr Luz: Histórias musicais

Lembro bem do Carlos Eduardo Dolabella pedindo um dó maior pra cantar ‘Marina’ e ser aplaudido

Por O Dia

Rio - Por conta dos frequentes atrasos em nossos voos domésticos, uma vez passei três horas no aeroporto de Confins, Belo Horizonte, na companhia do Wando, o autor de “Amor e Paixão”. Confesso aos interessados que, na época de “Moça”, outro sucesso dessa fera, tentei copiar alguns desses acordes. A conversa é ótima. Ele fala da coleção de calcinhas organizada pela própria esposa, relembra fatos do início de carreira, as primeiras músicas gravadas por ícones como Jair Rodrigues e Roberto Carlos, até a fama definitiva de brega.

As decolagens continuam interrompidas, e eu agradeço. Ali estava um artista brasileiro. Conhecia a fundo as mumunhas radiofônicas e a sonoridade popular. Incansável, ri das próprias histórias vividas em alguns hotéis perdidos na poeira da vida, circo a céu aberto, encontros e despedidas. Hoje é referência pra bloco carioca e é capaz de ter louvores em alguma poesia intelectual. Quem desconhece essa página do livro, um sentimento ao pé da letra. Procure saber!

Rememoro esse encontro por conta de dois recentes desfalques no elenco de artistas do povo, Reginaldo Rossi e, agora, Nelson Ned. Nos anos 80, segunda metade da década, eu tocava numa boate em Ipanema chamada Calígula. Personalidades de diferentes áreas batiam ponto nas madrugadas de meio de semana, horário de profissional.

Lembro bem do Carlos Eduardo Dolabella pedindo um dó maior pra cantar “Marina” e ser aplaudido por Jorginho Guinle, Pelé ou Roberta Close. Um aparte, simples percepção: ainda existia uma inocência na boemia dessa cidade. Outra celebridade que visitava aquele piano­bar era o Nelson Ned. Elegante até a sola do sapato, terno e gravata em plena savana da General Osório, era recebido com a pompa de maior cantor brasileiro.

Nos dias de hoje, dá pra imaginar o que aquela homem sofreu pra alcançar esse estrelato. Anão, conseguiu lotar quatro vezes o mitológico Carnegie Hall, em Nova York, ganhou discos de ouro e, quando morreu, morava numa casa de repouso, no interior paulista. Pra ser sincero, poucos sabiam que ainda estava vivo. Dia desses ouvi o belo disco feito pelo querido Chico Salles dedicado à obra de Sergio Sampaio, o capixaba de “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”.

Fui amigo de Sampaio até a sua morte, em maio de 1994. Nosso último papo foi por telefone. Eu, preocupado com o valor da ligação. E ele, do outro lado: “Moa, relaxa! Já até separei um dindim pra comprar uma televisão nova”. Considero­o um injustiçado. São histórias musicais. Rótulos, siglas, destinos, tudo conspirando feito cartas de uma cigana do largo. Não sei pra onde vai, mas a frase “Deus escreve certo por linhas tortas” pode se materializar em bronze para tanta estátua merecida.

Email: moaluz@ig.com.br

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