Milton Cunha: Vai ter Copa?

O povo gritava que permitia o Carnaval porque era em benefício próprio, aquela gente deseja preservar seu prazer

Por O Dia

Rio - Era uma visão do apocalipse, estrelada por um grupo macunaímico: eu dei de cara com o Bloco Boi Tolo, trepado nas escadarias e esculturas da Assembleia Legislativa do Rio, na tarde de domingo, quando a Liga dos Blocos, Sebastiana, fez o grito inaugural da folia 2014. Era impressionante porque tinha umas 400 pessoas fantasiadas, ocupando totalmente o cenário neoclássico, tendo por trás as gigantescas colunas de pedra, altíssimas.

Uma imagem de sonho, surreal. Cenógrafo nenhum nem figurinista qualquer fariam melhor. Uma cena de filme, uma fotografia em meu coração, porque muito do Brasil e do Rio estavam ali: nosso passado querendo ser francês e civilizado, nossa esculhambação e bom amor capaz de rir de nossa desgraça, tudo pisando no solo da política, que não enxerga esta gente brasileira como nação digna de respeito.

E aquela multidão estava respondendo à altura, com uma grande faixa branca mandando um recado para o poder governante: “VAI TER CARNAVAL, MAS NÃO VAI TER COPA”. Eu gelei, levei dois minutos para entender: aquela gente já está mandando um recado para os poderosos, de que vai dar merda. Estaria sendo eu alarmista? Pode ser. Mas o rapaz no cume das estátuas laterais estava com o pano preto no rosto de black bloc. E, deduzindo, me convenci de que pode ser brincadeira, com muita seriedade e disposição para o embate.

E repetindo os dizeres da faixa, vejamos: vai ter Carnaval, porque é democrático, aquela gente desvalida pode saracotear pelas ruas, mijar por ali mesmo, beber bebida barata e não tabelada, é uma festa do povo sem o padrão Fifa de sambar. Parecia que o povo gritava que permitia o Carnaval porque era em benefício próprio, aquela gente realmente deseja preservar seu prazer e diversão.

Mas ameaçam peitar as portas de estádios porque de alguma forma eles não se sentem dentro dos interesses da Copa ou sabem que ela não é para eles. Como resolveremos este impasse, só Deus e o tempo dirão. Mas o que eu vi foi um grupão se divertindo horrores e já sinalizando o porvir. Tinha a moça cujo estandarte dizia: “Tô dando sopa!”. Tinha o vestido de neném, dois rapazes com cabeça de vaca malhada, o anjo, a africana. Tinha os vendedores do inacreditável Drinkolé, saquinhos chupa-chupa que embriagam.

Mas, infelizmente, não tinha nem banheiro químico, nem ambulância, nem segurança ou polícia. Na Praça 15, local dos desfiles oficiais, contei umas 3.000 pessoas, e aí residia meu dilema, porque de um lado eu admirava verdadeiramente a disposição de se divertir com muito pouco, mas de outro lado a parede do Paço Imperial era um mijódromo exuberante. Como resolver esta vontade de Carnaval? Pois xixi e Copa da Fifa os males do brasileiro são.

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