Karla Rondon Prado: Vontade própria

Botar ponto nas frases está cada vez mais raro. Usa-se muito as reticências. Com medo de magoar, o outro se violenta

Por O Dia

Rio - O que é uma pessoa objetiva? Aquela que é prática, vai direto ao assunto? A burocrática, que tem tudo anotadinho, líquido e certo? A que não tem papas na língua e fala o que pensa? Ou a que resolve logo o que tem que resolver? Nenhuma das opções anteriores, penso. Depende do seu objetivo. Uma pessoa objetiva é aquela que se move em busca do objeto de sua preferência.

Comprar um apartamento por causa de uma árvore que fica diante da janela pode ser uma atitude objetiva, se o seu objetivo é todo dia, ao acordar, olhar para uma vista bonita. Ele pode ser longe do metrô, mal ou bem localizado, pequeno ou grande demais, ter problemas indissolúveis, defeitos mil e você nem notar, se o seu intuito estiver satisfeito.

O que o leva a se deleitar está presente na situação? Você está pleno com o que se apresenta? Trabalhou em busca desse resultado? Então foi direto ao seu ponto e isso torna as coisas mais curtas para você, mais claras, diretas, satisfatórias.

“Vocês vão ficar para o almoço?”, ela pergunta. “Não, não vamos ficar”, ele responde, sem chance de contra-argumentos e tréplicas. Já está dito, respondido, com ponto. Botar ponto nas frases está cada vez mais raro. Usa-se muito as reticências. Com medo de magoar, o outro se violenta nas reticências quando quer mesmo é botar ponto, parágrafo.

Está certo e é objetivo esse que vos responde sem interrogações, porque não deixa ninguém chateado, nem se chateia. Não há motivos por trás, confabulações, nada. Há uma pergunta e uma resposta, pronto, é isso, sem mais delongas.

Minha avó falava: a vida é simples, complicam porque querem. Tudo se resume a “sim” e “não”. A base de tudo, de andar para a direita ou para a esquerda, vem desses dois advérbios. Quem vive assim, mais diretamente, deve viver melhor.

Talvez se diga que esses são os mais ranzinzas, com menos jogo de cintura, mas são esses os mais objetivos, pois sabem o que querem e não se agridem.

Um amigo contou que, quando a mãe dele aprendeu a usar o “sim” e o “não” ao fazer terapia, tudo ficou tão radical em sua casa que até no almoço ela demorou a aprender o bom uso das duas palavras mágicas. Era: ”Me passa o arroz?”, e a resposta vinha certa: “Não”. Brincadeiras à parte, não enrolar o outro, nem a si mesmo, quando a circunstância se apresenta, é o mais objetivo. Saiba o que quer e já tem aí meio caminho andado.

E-mail: karlaprado@odia.com.br

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