Por thiago.antunes
Rio - Começou ontem na capital paulista programa que, no papel, mais se aproxima da solução ideal para dobrar o crack. Dependentes que há bem pouco tempo se desmilinguiam nas ruas agora são pagos para limpá-las. O serviço de faxina tem duração de quatro horas diárias. Cada usuário vai receber bolsa de um salário mínimo e meio (R$ 1.086), o que inclui gastos com alimentação e hospedagem, além do pagamento de R$ 15 por dia de trabalho. O dinheiro, segundo o prefeito Fernando Haddad, vai ser pago semanalmente.
Diferentes investidas tentaram conter a epidemia do crack que se abateu nas grandes cidades. Nenhuma teve êxito. Hoje, não se questiona a ineficácia do recolhimento puro e simples. A tática de esvaziar as cracolândias se revelou um enxugamento de gelo. A droga é tão potente, tão avassaladora na construção da dependência, que novos pontos de consumo surgiam com velocidade espantosa. As pedras, como se sabe, são baratas e fartas no narcotráfico.
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Passou-se a internar a torto e a direito, inclusive com o aval da Justiça. Outra ação insuficiente, desta vez porque os abrigos para onde os viciados são levados muitas vezes se apresentam em condições tão insalubres quanto as das ruas. Até a comida, invariavelmente uma sopa rala e insossa, é pior na acolhida.
O combate ao crack é uma batalha de longo prazo que requer persistência e investimento. Resgatar um viciado exige meses de comprometimento e acompanhamento. Entulhá-los sem esse suporte equivale a limpar um cômodo escondendo a sujeira embaixo do tapete. Por isso, é preciso observar bem a iniciativa paulistana, ver como evolui, anotar o que pode ser ajustado e avaliar os resultados.
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Somente medidas integradas darão jeito no caos social advindo do crack — e expertise, as autoridades do Rio têm. Basta ver a Lapa Presente, várias vezes citada neste espaço, que justamente aposta na união de forças para resolver um problema de segurança pública que tem origem num flagelo social.